Estou ministrando palestras de como não ser feliz, é isso
mesmo, não se espante. O que mais ouvimos nos dias atuais são receitas de como
ser feliz no amor, no trabalho, na vida enfim.
As igrejas estão com pessoas saindo pelo ladrão (e outras
ficando lá dentro mesmo), os marqueteiros criam sempre peças publicitárias
falando dela, a felicidade. Lair Ribeiro rodou o país falando da importância de
ser feliz, e as músicas que mais vendem no mundo tecem uma variação sobre o
tema.
A felicidade está focada no poder aquisitivo, em quanto você
possui em sua conta bancária, em tudo que esse dinheiro poderá te render
materialmente, é sempre a mesma ladainha do pragmatismo, o discurso
motivacional da vitória, da superação, de como chegar a felicidade.
Pois bem, na minha filosofia de botequim, a impressão que
tenho é que o homem nasceu para atender outras questões mais urgentes antes de
ter tempo para racionalizar a tal felicidade e suas implicações.
Mas desconfiem
do meu discurso, pois sou tipicamente alguém que costuma ser do ‘contra’,
negativo para outros, mas na real não é nada disso, apenas não faço parte do
coro dos contentes, que costuma sorrir de tudo e de todos.
A felicidade tal qual vendem por aí é aborrecida, egoísta e
superficial. Na verdade o que mais ouvimos no mundo hoje são mentiras de todos
os estilos, tamanhos e variações. Não sei aonde se escondeu a verdade, mas as
mentiras estão soltas por aí, prestes a pegar você, principalmente no golpe da
felicidade.
Nessa me recordei da antiga canção de Raul (toca Raul) e de
repente me peguei em dúvida:
-Será que eu sou
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou serei uma borboleta
Sonhando que era um sábio chinês...
Ps: Jamais moraria em uma rua, bairro, ou cidade com nomes
de Felicidade, Jardim da alegria, recanto
da alma feliz e por aí vai...
“Você tão calada e eu com medo de falar
Já não sei se é hora de partir ou de chegar
Onde eu passo agora não consigo te encontrar
Ou você já esteve aqui ou nunca vai estar
Tudo já passou, o trem passou, o barco vai
Isso é tão estranho que eu nem sei como explicar
Diga, meu amor, pois eu preciso escolher
Apagar as luzes, ficar perto de você
Ou aproveitar a solidão do amanhecer
Prá ver tudo aquilo que eu tenho que saber”.
Raulzito sabia das coisas, e sabia muito!
Vitrola: Raul Seixas - A hora do trem passar (1973)
Em dias de jogos do Brasil na Copa me bate uma certa raiva
da apatia de consciência social deste país. Talvez por isso me reste como
protesto vestir a camisa número 10 da seleção Argentina, até porque os babacas
oficiais da imprensa tupiniquim inventaram que os argentinos são nossos
inimigos... Hahaha, só pra quem lê pouco, se informa mal e acredita em tudo que
assiste na Globo! Será exagero meu????
Parodiando o Raulzito... Eu devia estar contente porque o
camisa 10 do Brasil é o Neymar com seu futebol ‘fantástico’ e seu carisma ‘fenomenal’...Pelo goleiro da seleção ser tão simpático e fragueiro
como o Júlio César, pelo poste do Fred parado lá na grande área adversária – um
matador inigualável.... Pelo sargento chato e sem sal do Felipão... etc e tal
Enfim, eu continuo sendo tão brasileiro quanto quem veste
uma camisa verde e amarela, faz barulho durante os 90 minutos e gosta de se
iludir com o Galvão Bueno... Mas...
Um fulano desses que adora dar conselhos coorporativos (hoje chamam de consultoria) resolve dar dicas de filmes para candidatos a concursos públicos. Bem, paciência se o cara até quando esta descansando pensa em seu
oficio, no fim das contas ele apenas gosta mesmo do que faz.
O senão aqui são mesmo as recomendações que sinceramente não irão fazer o candidato, pelo menos descobrir ou vivenciar alguma experiência artística
relevante através do cinema. Filmes não são apenas filmes e pronto.
Ele recomenda filmes que não estão relacionados diretamente a temas de estudos, mas que em sua opinião ‘servem’para motivar o candidato (a maldita mania de achar que tudo precisa servir para algo). E não precisam cara pálida? Acho que não cara torta! Aqui algumas de suas predileções:
• Homens de honra
• Rocky
• Menina de ouro
• Invictus
O professor indica assistir a filmes pelo menos uma vez por semana, de
preferência durante os finais de semana. “Aproveita-se para estudar e
passar um tempo com a família”, diz.
Só faltou algum filme sobre lutador de MMA, ou, jogador de futebol que
era pobrezinho e um dia enriqueceu financeiramente, mesmo não aprendendo nada de libertador sobre a vida.
Penso apenas que as pessoas buscam uma oportunidade de trabalho, algumas aspiram muito mais é claro, mas a maioria precisa mesmo apenas de um emprego que lhes dê o sustento. Logo, ficar teorizando sobre o tema é perda de tempo, justamente o mesmo que eu perdi escrevendo essas mal traçadas linhas.
Fico cá pensando com os meus botões: Será que os executivos (aqueles seres engravatados que fecham contratos e geram lucros às empresas, além de acumularem vasta milhagem aérea) não ficam por vezes entediados?
Claro que não! Eles adoram ouvir uma daquelas palestras “motivacionais”, aliás, parece que no salão imperial de convenções do inferno rola uma dessas babaquices a cada duas horas com convidados ilustres, o último por sinal foi Steve Jobs.
Na estrada é fácil perceber quem é quem, sobretudo nos hotéis.
Evidentemente que os executivos sempre estão acomodados nos hotéis e quartos mais confortáveis, afinal eles geram $$$$$ para as empresas, pelo menos é o que dizem. Em contrapartida quem trabalha com cultura e depende de órgãos públicos para acomodação terá sempre aquele hotelzinho com um quartinho esquecido do fundo do corredor e sem muito conforto óbvio, não temos esse direito. É como comprar um bilhete premiado! Batata! ACERTEI!!!!!!!
Talvez nós, professores, arte educadores, produtores culturais e toda sorte dos que não se conformam frente à situação socioeducativa absurda deste continente apelidado de Brasil, não consigamos traduzir nossos esforços em $$$$ as empresas, ao governo, a própria sociedade, tão imbecilizada pelo consumo frenético.
É bem provável que aquele semianalfabeto que se especializou em burocracia e outras artes de empulhação seja mais ‘qualificado’ para gerir um projeto social, cultural ou educativo e, até possa vez por outra almoçar junto com os senhores executivos e seus ternos de grife, gravatas italianas de seda, cabelos impecáveis, sorriso branco e argumentos previsíveis sobre produção, economia, marketing e tudo mais sobre a vida neste jogo de esconde.
Não me pergunte nada sobre “cultura” motivacional empresarial, nem tampouco sobre autoajuda, passo muito longe disso tudo. Pra dizer a verdade apenas lamento que o mundo cada vez mais dê importância desigual a valores dispares. Não à toa ficamos cada vez mais reféns de toda uma laia que admira nomes como Fausto Silva, Max Gehringer, Roberto Justus, Bernardinho, só pra citar alguns que poderão facilmente um dia ser palestrantes no salão de convenções citado no inicio do texto.
Ah! O tema da palestra: Com Destino Ao Sucesso.
Não poderia ser outro né.
Controlando
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez...
Resolvi misturar Raulzito com Status Quo porque a letra de Raul é instigante (a música da letra idem) mas me deu vontade de ouvir ao fundo os ‘velhinhos’ do Status floreando um rock’n’roll.
Hoje eu lembrei o dia inteiro do Maluco Beleza, Raul Seixas. Quando me deparo com sua história e a sua coragem de ter registrado toda sua vida escrita à mão em folhas de cadernos, “eu sentia que eu estava marcando as minhas pegadas na vida”, dizia ele, então eu penso:
Esse cara era mesmo especial, ou espacial!
O Baú guardando suas reminiscências foi aberto no dia de sua morte, e daí foi revelado entre tantas coisas que o garoto Raul queria ser como Roy Rogers quando crescesse. Ainda na infância esse cometa em estado bruto escreveu em seu caderno:
“A vida é um palito de fósforo que
vai se queimando até se apagar
para sempre”.
Vez por outra postarei alguns desses manuscritos aqui no blog, penso ser essa uma homenagem delicada a esse homem que não passou impune por esta vida.
Abaixo o derradeiro registro dessa metamorfose ambulante, veja na íntegra:
A coisa mais gostosa que tem é falar alto sem ninguém pra me ouvir exceto eu mesmo. A minha voz ecoando nos ares da minha solidão enorme. Eu sei que amanhã (dia de show) vou rir do que escrevi. É que a vida é uma coleção de momentos.
Vou esquentar meu peixe, pois a TV tem som e imagem.
Me capta mais que o gravador, que o rádio, que a radiola.
Eu quero assistir televisão mas estou pensando que não vou aguentar. Assistir até tarde. Vou ver o jogo.
Agora!! Estou com a TV ligada, que me anuncia um show.
Sofrendo uma crise de solidão. É horrível.
Aí, a TV me recomenda um filme, Promessa de Sangue, entre as irmãs Galvão.
Eu boto um disco de New Orleans orquestrado e sento no fogão à espera da panela quente. E eu canto no fogão. Eu canto à Beira do Pantanal (do fogão) à espera do rango que eu tô cozinhando.
Raulzito. Eis aí um artista popular brasileiro com letras maiúsculas, na minha opinião até mais popular do que Roberto Carlos (mas que heresia moço!).
Ouro de Tolo é clássico dos anos 70 – ditadura, milagre brasileiro, família, religião – lembram disso na aula de história?
Pois é, Raul Seixas era o ídolo preferido dos adolescentes do começo dos 80’s.
Eu tinha dois colegas de classe na escola, o Júlio César e o Marcelo Passos, que eram enfeitiçados pelo Raul. De em vez em quando lá estavam os dois burlando a segurança para adentrar em um show do Raul, era bem divertido ouvi-lós contando as histórias e aventuras dos shows do Raul Seixas. Algo místico para eles, na época um pouco distante para a minha realidade, mas eu curtia ouvir aquilo tudo bem adolescente, fantasioso, mas com um fundo bem real.
Com esta canção Raulzito cravou os dois pés no ego inflado da classe média brasileira – e ego é como aquele boneco inflável, o João Bobo –
Balança, balança, e não sai do lugar.
Uma lembrança após mais de vinte anos da morte do maluco beleza, e cada vez fica mais claro, com a distância que só tempo nos cofere, quem era quem na dupla Raul Seixas, Paulo Coelho. Um era a honestidade, a transparência altiva travestida de loucura. O outro o marqueteiro, a publicidade a favor de alguma causa monetária, é claro. O áudio do discurso de Raul no final do vídeo diz tudo, preste atenção.