Ele estava sentado na calçada cantarolando alguma canção. Olhava para o céu nublado, cinza tal qual sua vida. De repente um carro branco importado pára à sua direita, desliga o motor. Alguém desce, bate a porta e vai em direção a padaria. Ele para de cantarolar, eleva seus olhos para quem ficou no carro. Sem querer incomodar espera que o motorista olhe para o lado. Acontece então a deixa:
- Moço eu queria apenas um espaço para lhe falar.
-Eu não sou um maloqueiro, e nem sou um bandido. Eu sei que as pessoas olham para mim aqui na sarjeta e pensam: Esse cara é um fracassado, um merda. Esta aí só pra arrancar uns trocados, não quer trabalhar, é um vagabundo!
O vidro do carro desce, o som do rádio cessa. Alguém deseja ouvir aquela história.
-Eu tenho uma filha o nome dela é Emilly, escreve-se com dois eles e Ipysolon no final. A minha esposa voltou a trabalhar e, quando eu conseguir o meu as coisas vão melhorar. Eu não gosto que a minha filha me veja aqui na rua, mas quando ela aparece me abraça e diz: Oi papai!
-O senhor não imagina o quanto isso que me faz seguir em frente. Hoje eu tô aqui meio jogado, um pouco judiado pelo sofrimento, a gente não é de ferro sabe, tem dia que dá vontade de jogar tudo pro alto. Eu tenho fé que isso é passageiro, um dia tudo volta a ficar melhor pra mim e a minha família.
Ouvem-se passos e vozes na direção do carro. A porta abre, o motor volta a girar... E antes de partir ele responde a pergunta do motorista:
-Meu nome é Francisco, eu sei restaurar móveis. Eu consigo deixar novo um móvel que pro senhor parece não servir mais pra nada. Obrigado por me ouvir, desculpe o desabafo. Boa sorte pro senhor e a família.
Francisco não está sozinho nas ruas de São Paulo. Não é o único que se senti um merda quando a sociedade apenas lhe diz não. Mas Francisco tem um tesouro; a Emilly.
A dignidade que o mantém lúcido, infelizmente não é a mesma dos nossos políticos.
A adolescência e suas dúvidas. Crescemos rápido até demais para depois aos poucos ceder espaço a certa contemplação, os anos trazem a serenidade. É como me sinto quando vejo Michael Stipe emitir som na balada “At My Most Beautiful”.
O hiato entre juventude e velhice, então observe... O cantor canta hoje como não cantava antigamente. Sereno, sua intuição ainda é a mesma? Sim. Sua beleza está lá intacta, e o R.E.M. sobreviveu dia após dia.
No meu momento mais bonito
Eu conto seus cílios, secretamente
A cada um, sussurro "eu te amo"
E deixo você dormir.
Trilha Sonora Artista: R.E.M. Música: At My Most Beautiful
Chuva, muita chuva! Parou tudo, menos o bom-humor do pessoal da "Terça Insana": personagens caracteristicos de sampa inundaram a noite com alegria sutil e fina, após um dia ensopado.
O R.E.M. é a melhor banda depois dos Beatles! Talvez.
Michael Stipe e sua turma fazem a vida valer a pena. "Imitation Of Life" é bela e, simplória, como a minha vida!
O vídeo inteligente, assim, como a noite de boas risadas no Avenida Clube.