Uma senhora solicita um Uber
no final da tarde, deseja apenas chegar em casa após mais um dia de trabalho,
quase escravo, pois o trabalho justo no país é bem próximo da escravidão.
Entre subidas e descidas o
motorista do aplicativo procura realizar o melhor caminho, com o maior cuidado
possível até o final do trajeto. Quando
o carro adentra na comunidade de destino o motorista ouve da senhora a seguinte
frase:
- Eu chego de Uber em casa e
todo mundo fica observando, como se isso fosse a coisa mais estranha do mundo!
No Brasil desde sua
fundação, as pessoas simples sempre foram tratadas como pessoas de quinta
categoria. Com o passar dos tempos essa desvalorização humanitária apenas
cresceu.
Não me espanta a reação das pessoas
ao verem aquela senhora chegando em casa de carro de aplicativo, pois essas
pessoas sempre foram desvalorizadas, esculachadas, sobretudo pelos políticos e pela classe média e rica do país.
O que me espanta é o ódio
que boa parte da classe média brasileira possui em relação as classes menos favorecidas, (aquela que a classe média adora espezinhar) e
mais ainda o desejo dos medianos de enriquecerem a qualquer custo no país. No Brasil os mais ricos são lambidos, adorados, idolatrados e jamais são avacalhados, com se eles nada tivessem com a crise,
com a corrupção, com a péssima distribuição de renda do país, com o cinismo do tal mercado financeiro.
É curioso, e mais que isso é
perverso alguém acreditar que um país possa ser bem sucedido sem investimento real em educação, e
pensar que ser rico é a melhor coisa que um cidadão pode conquistar na vida, custe
o que custar, diga-se.
O Brasil é mesmo uma
perfeição! Pródigo em suas mazelas.
Carta 1 – “A verdadeira
desorganização do desespero”*, ou, quando a solidão doí muito...
Pequeno lord,
Aqui onde encontro-me agora, não tenho mais do que 8 metros
quadrados para expandir os meus sentimentos, as minhas convicções, as minhas
esperanças e tristezas. Mas veja meu filho, isso não é um lamento, ao contrário
é uma forma tênue de resistir aos botes ligeiros e rasteiros que vire e mexe
recebemos da vida. Se há algum proveito na dor é a compreensão de que na vida
nada é em vão, e a certeza cristalina de que tudo que plantamos um dia
semearemos de alguma maneira, quase sempre do modo menos esperado, diga-se.
“No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir”...
Passo os meus dias praticamente longe do meu pequeno
apartamento, que é simples, porém já gerei um carinho por este meu canto, e
tudo melhora quando eu olho para a parede à minha frente e vejo o lindo quadro
que a sua mãe me presenteou no último dia dos pais, sim aqueles em que você
está em diversas fotografias desde do seu primeiro dia de vida até
recentemente.
De todas as fotos existe uma que me chama muita atenção, aquela
de quando você estava brincando no parque do Ibirapuera com seu rostinho
pintado de tigre, lembra?
Acho que foi no verão deste ano...
Você estava reflexivo, quieto e compenetrado, a sua beleza é
ainda mais notada por esses pequenos detalhes, você não poderia ser alguém
diferente, desde cedo apresenta uma certa maturidade para uma criança de três
anos e meio, isso sem deixar de ser um moleque safado e muito alegre e
desenvolto em suas relações com o seu pequeno grande universo.
Ao retornar do meu trabalho eu quase sempre chego feliz,
pois mais um dia foi vencido, apesar dos problemas – que continuarão a existir
– se não fosse assim não o chamaríamos de trabalho, não é verdade!
Um dia você
compreenderá melhor do que falo agora.
Quando aqui cheguei era inverno e de certo modo eu vivia um
autêntico cá dentro de meu ser. Os primeiros dias e as primeiras semanas não
foram exatamente o que denominamos de fácil, no entanto foi importante manter a
serenidade e a vontade de tentar compreender por quê a minha vida estava
passando por essa mudança drástica e de forma inesperada...
“De lá pra
cá não sei
Caminho ao
longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno em Itapetininga é quase glacial” (licença poética)
Certo mesmo é que aos poucos a vida vai querendo me dizer
algo sobre a tempestade, e nunca se esqueça que só temos bonança quando
atravessamos um temporal daqueles devastadores. Tenho tido tempo para voltar a
escrever algumas linhas caóticas, dentro do meu estilo sem padrão definido, e
retornei ao meu prazer de pesquisar música, tendo escutado muitas músicas
antigas e novas, o que me move a bons sentimentos.
Nesse momento está tocando um clássico da música francesa,
sim a França da Torre Eiffel que você tão lindamente diz querer conhecer um
dia, a canção é Aline gravada pelo cantor Cristophe em 1965. Essa música
aparece em uma cena muito bacana do filme “Praia do Futuro” (BRA, 2012)
dirigido pelo cineasta cearense Karim Aïnouz e estrelado pelo ótimo ator Wagner
Moura, talvez o nosso melhor ator da atualidade por sua capacidade tácita de
encarnar suas personagens com profundidade, sempre deixando uma porta
entreaberta ao público para ser curioso a respeito de sua atuação, isso é no
mínimo fantástico para um ator que não teme a exposição dentro de cena,
certamente um dos elos fortes na carreira do Wagner.
Meu pequeno anjinho, foi pensando no verso da música de
Adriana Calcanhoto e Antônio Cicero – o filósofo que também é irmão da cantora
Marina Lima – que seu pai percebeu que poderia escrever longas cartas para você
durante este período de exílio forçado, é preciso entender que o nosso país
vive uma grave crise de liberdade, aqui a palavra exílio não é usada de maneira
vã.
Enfim achei bem prático e de certo modo poético a ideia, e
um dia se você desejar poderá lê-las.
Termino essa primeira carta com um poema do Ferreira Gullar
que nasceu no estado da sua querida mãe, espero que você goste do poema do
Gullar e depois do pequeno trecho que compus para fechar a narrativa.
Retratos
“Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens”.
Ferreira Gullar
Piazolla me faz chorar copiosamente,
a vida me faz chorar de tristeza e alegria
porque lá no fundo
sem essa dor
eu não reconheceria
o milagre da paz.
Jonathas Nascimento
Fique em paz meu pequeno tesouro, brinque bastante e logo
estaremos juntos novamente.
Reza a lenda
que esse registro de Renato Russo e a sua Legião Urbana aconteceu durante a
passagem de som da banda para o show em Volta Redonda no Rio de Janeiro em 1990,
após uma chuva torrencial que quase ameaçou a realização do show. Então durante
a passagem de som Renato decide fazer um agrado ao público que já estava por
ali e não desistira apesar da chuva e manda a belíssima “A Whiter shade of Pale”...
Ficou legal
e até então eu não conhecia esse registro.
A Cia. Das Letras
acaba de lançar um diário escrito por Renato Russo - “Só Por Hoje e Para Sempre - Diário do
Recomeço”. O livro é composto por escritos de Renato durante sua internação na
Clinica Vila Serena no Rio de janeiro em 1993 e, esses textos são parte integrante do tratamento.
Ali a gente
entende que o ser humano de fato cria as suas mascaras para sobreviver, mas lá
no fundo é possível encontrar a alma, mesmo que doente revelando outros
quadros, ainda intactos.
Renato Russo
estava enfim na busca de sua sanidade, lutando pra valer contra o que lhe
afligia e o perturbava. A coincidência é que eu mesmo adoraria neste instante
encontrar uma espécie de “Vila Serena” para dar um tempo em tudo e cuidar da
minha própria alma, mas que não nasce rico não pode ser dar a esse luxo, então
a “Vila Serena” pode ser um vagão do metro combalido da histérica São Paulo, os
famoso trilhos da esperança...
A depressão
não poupa ninguém, menos ainda quem já possuí um histórico anterior.
O que muda
são as percepções com o tempo e, desta vez resolvi não pagar pra ver, fui logo
atrás de ajuda, reconhecendo a minha incapacidade de lutar contra esse monstro
sozinho, o que já é um alento.
Olhando as
letras que Renato compôs logo após seus 29 dias de tratamento, é possível
atestar o quanto essa busca lhe fez bem, embora na época uma boa parte da
critica tenha torcido o nariz para o conteúdo, mas e daí, cada um sabe onde
aperta o calo.
Renato nos anos
seguintes a sua internação produziu certamente dois discos emblemáticos e que
provam o quanto essa redescoberta lhe proporcionou benefícios:
O belíssimo “The
Stonewall Celebration Concert” (1994) é o primeiro disco solo de Renato Russo,
gravado entre fevereiro e março de 1994. Interpretado totalmente em inglês, foi
uma homenagem aos vinte cinco anos da Rebelião de Stonewall em Nova Iorque.
Seus royalties foram doados para a campanha do sociólogo Betinho na campanha
contra a fome daquele ano.
Em 1995 ele
lança “Equilibrio Distante" segundo álbum
solo cantado em italiano, uma homenagem a sua família, quase um pedido de
desculpa pelos anos de terror que suas atitudes causavam ao seio de sua família
nuclear.
Sem dúvida
que essa leitura trará alguns contrapontos e outros olhares, exatamente em um
momento delicado, porém a vida seguirá em frente de um jeito, ou, de outro.
Uma
despedida à altura da obra de Renato Manfredini Jr:
O Livro dos
Dias é uma canção tristonha - composta por alguém que já sabia que não viveria
muito mais do que aqueles meses do ano de 1996...
É bela pela
natureza simples da vida, pois aqui se nasce, cresce e um dia partimos...
A voz de Renato neste disco é um ato quase heroico...
Renato sabia
como poucos aliar elementos que juntos podem ser um desastre, ou então algo tão
lindo quanto a última música do último disco da Legião Urbana ainda com ele...
Eu
hoje ouvi uma canção que me fez recorder você, melhor dizendo: Eu ouvi três,
quatro, uma dúzia de discos que poderiam contar uma estória de ficção, ou quem
sabe a nossa própria história.
Na
primeira canção havia um solo de guitarra que parecia gritar, olha eu ainda amo
você! Era o Lobão em “Me chama”.
Este
tipo de ritual, mezzo música, mezzo cinema, costuma ser efêmero, porém às vezes
pode perdurar por uma vida inteira. Sabe aqueles filmes com mais de três horas
e meia, pois somos nós que jamais saberemos aonde e quando pôr fim a nossa
história. E será mesmo preciso?
Lá
pelas tantas baixou o Renato Russo cantando em italiano, uma de suas mais belas
interpretações “La Solitudine”, algo simples mais poderoso em se tratando de
arte. Ainda passaram por lá os ingleses do Style Council com “Hot Long Summer”
entre outros.
Tirei
o carnaval para este rápido retiro, e nesse encontro com as músicas que tocam a
minha alma eu encontrei um oceano no fim do caminho, ou seja, não haverá um fim,
mas apenas trilhas a percorrer.
Mês
complicado, felizmente chegando ao fim e tudo começando a melhorar lentamente.
Ouvi dias desse enquanto percorria a Avenida das ilusões, como Renato sabia
achar o ponto certo para cada canção...
Lembro-me
como se fosse ontem, a primeira música do disco V da Legião Urbana, o disco
branco de Renato Russo e sua trupe. Love Song é quase uma vinheta, mas incisiva, autêntica e corajosa, escrita em português arcaico. O disco que vem a seguir
é algo denso, rotulado pela maioria de disco difícil, pesado, mas é antes de
tudo, um tributo ao amor, seja o amor em tempos de cólera no escrito brilhante
de Gabriel Garcia Márquez, seja o amor em tempos de crise político-econômica
como era o caso daquele 1991 de Collors e cia, e da Aids rondando feito pássaro
agorento.
Neste
domingo de frio e cansaço, ando exausto de tanto produzir e-mails inúteis e
papeis inócuos e sem criatividade alguma, que merda!!!
De
repente como um aviso celeste me veio a mente este balsamo, este jogo de luzes,
esta encruzilhada, esse tema tão medieval e atual, irei cantarolar pelo dia
inteiro... Quiça pelo resto de minha vida...
Na
raia eu nadava todos os dias, fizesse sol ou chuva, calor ou frio.
Na
avenida ele, alguém aparentemente distante, caminhava todas as manhãs,
observando o cotidiano da cidade que nunca dorme. Em pouco mais de dois quilômetros
de caminhada pela avenida enfeitiçada ele colecionou panfletos. Tinha de tudo
um pouco: anúncio de trabalhos espirituais para trazer o amor de volta, formulas
milagrosas de emagrecimento, propaganda de planos médicos, clube de dança e até
um convite para assinar um abaixo assinado contra a polinésia francesa.
A
noite no seu retorno para o lar, os telões exibiam lances de uma partida de
futebol, em meio a uma propaganda de um banco que anunciava a ‘sustentabilidade’,
o mundo já foi menos cínico, pensou ele. Cruzou calçadas repletas de mesinhas
de bares, que não pagam imposto para utilizar o passeio público,viu ali jovens incinerados
pelo cigarro e embriagados da felicidade fulgaz de uma porção de álcool...
Já
era tarde para ele e para tantos outros que dormiriam por ali mesmo, abraçados
ao chão duro e enrolados pelo papelão de produtos caros de pessoas ricas que
habitam aquela mesma cidade. Sejamos sinceros: Não existe igualdade! É só música urbana...
Às vezes é difícil esquecer: "Sinto muito, ela não mora mais aqui" Mas então, por que eu finjo Que acredito no que invento? Nada disso aconteceu assim Não foi desse jeito Ninguém sofreu É só você que me provoca essa saudade vazia Tentando pintar essas flores com o nome De "amor-perfeito" E "não-te-esqueças-de-mim"...