Uma entrevista fictícia para uma revista inexistente. (graças aos céus)
Jornalista:
-Você nasceu para correr? O que diria a quem por ventura deseje sair correndo?
Eu
-Não sou atleta, corro por mera diversão, bebo cerveja e Coca-cola e, não sou adepto do culto ao corpo. Vou sim à academia, mas não consigo conversar com quase ninguém. Se você deseja correr então saia correndo não há segredo nenhum nisso. É preciso uma entrevista para que se publique isso?
J – Você começou a correr como parte de uma terapia contra a depressão, então não precisa mais ir a psicanalise?
E- Querida, quem te disse isso? Aliás, porque você está me entrevistando? Eu não sou nenhuma pseudo celebridade, nem mesmo uma celebridade ignorante por completo. Não tenho nada relevante para dizer.
J-Ok. Apenas mais uma pergunta:
-Woody Allen ou Bruce Springsteen?
E-Gostaria muito de compreender a sua pergunta. Os dois ora bolas, o que uma coisa necessariamente tem a haver com a outra?
Como vimos, eu jamais seria uma celebridade famosa, querida, facilmente manobrada pela mídia. Seria bem mais fácil encontrar-me na velhice em um asilo, esquecido pelos fãs.
Lá vem Stevie com sua gaita a enredar o amor e suas sensações. Lá no fundo do coração, escondido, ou escancarado, ele, sempre ele, o amor que nos move.
E Stevie canta, toca, brilha, porque o amor é a razão de sua vida, de sua arte, de sua música, de nossa existência.
Obrigado Stevie Wonder! O mundo fica melhor com a sua inspiração.
É uma fase de leituras, às vezes múltiplas, mas convexas. Degustando a saborosa crônica de Affonso Romano San’tanna intitulada “A Ilusão do Fim de Semana”, logo faço uma relação com o cânone teórico de Adorno sobre a industria cultural.
Nos dois casos, fica evidenciado que nós seres civilizados das grandes, médias e pequenas cidades perdemos a capacidade de mensurar nossa estupidez. Sim, porque o modo no qual a maioria de nós vive (ou será melhor dizer sobrevive) é permeado por uma estúpida seqüência de infelicidade coletiva. Se não vejamos:
“Há algo errado nisto. Onde havia florestas construímos cidades de concreto, asfalto e vidro. Ai vivemos. Ou melhor: trabalhamos. Mas como o lugar onde trabalhamos não é onde queremos viver, então no fim de semana rumamos para onde há floresta ou praia, onde, além do verde e do azul, se pode respirar. Chegamos. Acabamos de encostar o carro na garagem da casa de campo, fazenda ou do hotel nas montanhas. Chegar aqui não foi fácil. Duas, cinco, ás vezes dez horas de engarrafamento. O verde e o azul, lá longe ainda, difíceis de alcançar. E a gente ali na estrada entalado num terrível rito de ultrapassagem", descreve com certa dose de ironia o cronista.
Por sua vez, Adorno já advertia no século passado que, “o homem dentro da Indústria Cultural, não passa de mero instrumento de trabalho e de consumo, ou seja, objeto. O homem é tão bem manipulado e ideologizado que até mesmo o seu lazer se torna uma extensão do trabalho”.
Neste labirinto onde sempre somos monitorados, nosso direito de escolha é relegado ao trivial direito do consumidor, já que não somos mais cidadãos, o que importa agora é o pré e o pós-venda. Marketing e ilusão confundem nossas massas perdidas na terrível tarefa de acreditar que tudo está bem, apesar do contrário, da infelicidade estampada em nossos outdoors internos, aqueles embutidos na minha, na sua, enfim, nas nossas mentes diariamente.
E vou lendo, conspirando contra minha própria desconfiança, e sigo pensando no show de Morrissey que se avizinha para breve, um outro espetáculo onde o "nós" representa apenas um joguete, apesar de, neste caso ser por demais agradável ver sobre o palco um bibliotecário que consegui a seu modo subverter a maré turva da industria do entretenimento.
Ainda assim prefiro ficar com o recado do cronista: “Há algo de errado nisto. E persistimos”.
Pra quem reclama da vida
pra quem procura uma fuga
uma muleta para apoiar-se
numa rota qualquer
para desaparecer sem lutar...
Eu vejo,
Eu escuto,
sim
descrevam-me o que veem agora
ali
naquela artista
que trava um duelo
consigo mesma
com a dor
de ser jovem
com a fama
de ter brilho
sim
descrevam-me
se o talento venceu
o demônio da doença
que degenera passo a passo
tendão a tendão
a musculatura
das mãos daquela menina
que ceifa seus sonhos
trazendo ventos e tempestades
e mesmo assim
ainda vejo
melhor,
ouço a sinfonia
do desespero
e ninguém bate em retirada
Música!
Música!
Todos querem ouvir música.
Não existe fuga
quando amamos
não importa se ela não toca mais o instrumento
Ela me fez sonhar até o final.
Às vezes a vida é irremediavelmente cruel, e o fim pode ser trágico, melancólico, ou simplesmente, cruel mesmo.
Fiquei sabendo apenas na hora do almoço e preferia continuar sem a terrível noticia.
Whitney Houston embarcou sem destino, foi embora aos 48 anos, depois de passar o que enfrentou nesta vida, seu corpo sucumbiu ao estresse frenético, à gangorra implacável do show bussiness. Enfim ninguém é de aço, nem mesmo o super-homem. Nem mesmo eu, ou você aí do outro lado, a vida nos pesa, nos cobra de diversas maneiras, dia após dia.
Pensar no seu desaparecimento é algo devastador para quem vive a desvendar os meandros da música, da pop art.
A única fonte de consolo nisso tudo é tão somente ouvir sua voz ecoando aqui nos meus ouvidos, como fiz ontem logo cedo enquanto me dirigia para um curso de fotografia, e justamente ouvindo a trilha sonora do seu filme de maior sucesso, “The Bodyguard” (1992), uma infeliz coincidência certamente.
Whitney preciso apenas corrigir: você não está sem destino, “você está voando para os braços do Pai!”.
Este é o sentido que me move
quando preciso não tentar
enfrentar o mundo
I'm just sitting here watching the wheels go round and round I really love to watch them roll No longer riding on the merry-go-round I just had to let it go
Então,
deixe rolar…
Trilha Sonora Artista: John Lennon Música: Watching The Wheels
Foi ali, às margens do Sena que seu coração bateu diferente pela última vez e, agora numa noite fria de janeiro ela tinha apenas a luz do luar como companheira para agasalhar seu coração.
As flores do outono haviam murchado e caído, o que se via era uma maquiagem de esperança, tanto na estação quanto em sua alma...
Eu sempre desconfio de quem solta a frase:
-Eu gosto muito de fulano de tal, muito mesmo, mas...
Não existe mas quando amamos alguém genuinamente, posso ser ingênuo, mas sou eu mesmo e minhas contradições, vícios e virtudes, sem hipocrisia...