quarta-feira, 26 de abril de 2017

Espera Silenciosa


Eu morri naquele dia. 

Quantas vezes precisaremos nascer de novo, nos reinventarmos, para seguir procurando por aquilo que jamais acontecerá?

Desesperança é a palavra da moda, talvez por causa de tanta cretinice solta pelos quatro cantos do planeta, talvez porque as pessoas mais sensatas (se é que elas de fato existem) estejam todas de férias, em uma espécie de século sabático, pois a guinada dos últimos anos é mesmo pra deixar qualquer ser um pouco mais crítico sem muita esperança.

Nessas horas, no entanto é bom se apegar a sutilezas, invisíveis, pequenas, mas saborosamente vivas. 

Tenho lido textos de Rubem Alves, sobre a vida, sobre a morte, sobre a esperança, sobre a falta de alento, sobre os filhos, sobre os mares, sobre as montanhas, sobre o amor...

Existem dias cinzentos e quietos, onde apenas ouço as vozes a lamuriar,
Entristecidas pela proximidade da morte.

Existem instantes em que mal consigo avistar o outro lado do rio,
Pois um nevoeiro teimoso parece me perseguir ...

Nesses dias não vejo nada,
Apenas o breu, porém sinto firmemente alguma espécie de poder
a guiar-me pela escuridão infinita.

E quase lá no final de tudo
quando de súbito abro os meus olhos
Tal qual um toque angelical eu antevejo
Os olhos e o sorriso lindo do meu filho...

Não sei se isso é uma ponta de esperança,
ou apenas mais uma poesia
para ler durante a espera silenciosa.


Depeche Mode – Poison Heart

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Signos


Ela me olhou no meio da rua, me chamou, mesmo não me conhecendo, parou e disse:

-Ei garoto (ganhei a década), qual é o seu signo?

-Eu... Sou de gêmeos.

Não, ela não falou nas malditas duas caras...

-Então vou ler o que os astros reservaram para você hoje:

Seu jeito alegre e divertido chama a atenção de todos ao redor. Como não suporta o engano, só vai entregar seu coração quando tiver certeza de que a relação vale mesmo a pena. Para chegar a essa conclusão, você vai passar horas conversando com seu pretendente, sobre vários assuntos, na tentativa de conhecê-lo melhor. Se o parceiro tiver o seu pique para buscar sempre novos interesses, o romance tem tudo para dar certo. Mas, se a relação cair na rotina, mesmo estando muito a fim, você vai sentir necessidade de buscar novas emoções.

Terminou a leitura e simplesmente desapareceu com a mesma rapidez que surgiu…

Depois disso o meu dia foi qualquer coisa, o que menos importava era o signo, mas fiquei rindo sozinho até o final da noite.


The Floaters - Float On

sábado, 8 de abril de 2017

Esses Humanos


Sim, eu escutei e foi hoje no final da tarde:

- Como alguém consegue ser reprovado numa matéria de humanas?
- Ah! Mas se fosse exatas, tudo bem! Mas humanas?

Pois é, uma garota adolescente comentava com seu grupo de colegas de escola sobre a “proeza” provavelmente de algum conhecido, desafortunado duas vezes: A primeira por ter sido reprovado e, a segunda porque o não êxito foi em uma matéria de humanas.  

Mas enfim, o comentário reverberou em minha mente de imediato, no seguinte raciocínio:

- Querida, um dia você descobrirá da pior maneira possível em sua jovem vida, que as relações humanas não possuem nenhum resquício lúcido de facilidade!

O ser humano é naturalmente complexo e, lhe dar com esse emaranhado de tramas e possibilidades jamais será algo fácil.

Nossa educação peca por não possibilitar aos jovens uma ideia mais realista do que são as relações humanas, sobretudo no mercado de trabalho. Aprender matemática pode não ser fácil, porém a compreensão humana é igualmente infinita e trabalhosa!

Fleet Foxes - Mykonos



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Carrossel


Eu olhava aquele carrossel abandonado
Tão belo e inspirador...
Vasculhava então as minhas lembranças
Jogadas na lixeira cerebral há muito tempo atrás ...

Alguém passando por ali parou, olhou e disse em voz alta:

-Que lindo este carrossel! Lembra a minha infância.

Mas, hoje em dia as pessoas querem mesmo é andar na montanha russa, virarem de ponta cabeça e depois vomitarem...

Emoções tão baratas dominam este mundo vil
Onde o singelo cedeu espaço a pirotecnia ilusória...

Parece já estar na hora de restaurar a minha memória
Rode novamente o lindo carrossel!


Half Moon Run – Warmest Regards

sábado, 1 de abril de 2017

Alfie e Eu


“Vivemos essa troca incessante de luzes e sombras. Estamos perto de Deus e do Diabo. As pessoas estão enfraquecidas, muito zumbis. Drogadas pelo trabalho, pela televisão, na fronteira de uma morte coletiva. O homem não pode se separar da natureza. Ando muito só e assustado com tudo isso. Toda vez que desço à cidade, vejo as pessoas ruins emocionalmente, a crise não é apenas econômica...”.

Caio Fernando Abreu

Eu escutei a voz de Alfie que me sussurrava ao ouvido:

Without true love we just exist, Alfie.
Until you find the love you've missed you're nothing, Alfie.
When you walk let your heart lead the way
and you'll find love any day, Alfie, Alfie.

Têm dias em que ficar ouvindo a voz de Burt cantando Alfie, vale mais que qualquer volta lá fora, na escuridão.

Acho que um piano está arpejando os meus sentidos nesta tarde de sábado...

Burt Bacharach - Alfie

terça-feira, 28 de março de 2017

Liquefazer


E por onde anda a sobriedade

quando vemos apenas a simulação de afetos?

Este mundo e suas relações liquidas

não temos mais tempo para nada relevante

veja ali aquela fila enorme

claro que não trata-se de nenhuma doação

de amor
bondade
e respeito

é apenas mais uma fila para compra e venda

Meu filho me diz que me ama muito

ele só tem 4 anos

será que quando crescemos desaprendemos?

Preciso de você para me salvar...
Preciso de amor para sobreviver...

As estrelas cintilantes da infância estão lá fora nessa noite

E você por anda?

Gene - Save Me, I'm Yours



sábado, 11 de março de 2017

Ultra Violeta


I remember when we could sleep on stones
Now we lie together in whispers and moans
When I was all messed up and I heard opera in my head
Your love was a light bulb hanging over my bed…

Esse vídeo é devastadoramente belo
Essa canção é decididamente tocante
A interpretação de Bono eleva a minha alma
A guitarra de The Edge contagia
e
Acima de tudo
Ela me faz recordar de amigos tão queridos
E todos hoje estão distantes e ao mesmo tempo tão perto de mim...

Seja
Em São Paulo
Fortaleza
Londres
São Luís
Paris
ou
Maceió

Ou mesmo aqui em Itapetininga...
Sim
Ouçam a canção
E nunca esqueçam:
Eu Amo todos vocês...

Baby, baby, baby, light my way
(Oh, come on)
Baby, baby, baby, light my way

(Ultraviolet - ultraviolet)
(Ultraviolet - ultraviolet)


U2 – Ultraviolet (light My Way)

sábado, 4 de março de 2017

Resiliência



“Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois”

Cazuza

Depois de algumas décadas a gente se acostuma com a sombra da solidão.
A gente começa a perceber que existem palavras que definem melhor o que sentimos quando estamos aparentemente sozinhos...

E daí num belo dia, você quase febril tem uma visão borrada de um suposto delírio:

Repórter (aquele bem mal informado e pessimamente formado na acepção profissionalizante)

-James, você pode me falar um pouco sobre a importância da superação em sua vida?

-Claro, é muito simples.

Superação é algo que não existe na minha vida, acho muito insosso, chato e pernicioso essa mania quase obsessiva da mídia bajuladora dos ricos deste país, de ficar nesse discurso fajuto, fake mesmo, de SUPERAÇÃO pra cá, SUPERAÇÃO pra lá, um exemplo de vida a ser seguido, essa balela toda que enoja.

Todo dia é a mesma história, vocês inventam uma jornada do herói pra passar no telejornal, geralmente a última matéria é sempre com esse papinho de fulano que é um exemplo disso, daquilo...

Caralho, vocês não cansam dessa merda não!

Olha bota aí: Tô cagando para qualquer tipo de superação. O meu tema favorito é resiliência.

*capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Sabe, quanto mais eu apanho na vida, isso vai ficando mais evidente. A sua capacidade de levar na cabeça, de não ter sorte em quase nada na vida, é muito mais importante do que falar sobre essa porra de superação...

Cara, eu tô aqui em pé depois de tomar uma surra por dia no trabalho, depois de ser tratado como lixo nesse país onde os ricos filhos da puta te fodem todo dia pra você continuar sustentando as regalias que esse putos recebem a mais de 500 anos.

Aí você que trabalha numa empresa de comunicação, que não informa nada, apenas desarticula qualquer possibilidade de construção de uma comunicação de massa pelo menos razoável, vem me falar em superação!

O que mais importa meu caro é o quanto você aguenta de pé, mesmo levando surra, sendo injustiçado, virando chacota para muitos, e mesmo assim você permanece em pé e não desiste...   Não dá esse gostinho pra essa corja.

Eu não quero um trem para as estrelas...

A vida é aqui e agora, esse papo de que eu tenho que fazer isso e aquilo outro para depois ser feliz... Cara, não dá, isso é papo de quem sempre ganha na mão grande, explorando o próximo.

Vem aqui pro ringue que a gente vai ver quem aguenta mais porrada na vida, eu tô cascudo desse papo furado.

E olha acabou a entrevista, cai fora, vai entrevistar algum FDP por aí, a porta é por ali meu jovem, desculpe mas não dá!




terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dois Mundos


Estava escrito em algum lugar, como se fosse um alerta sobre o porvir...

“Sonhe como se fosse viver para sempre; viva como se fosse morrer hoje”
James Dean

Ele gostaria muito de carregar essa frase como seu lema de vida, talvez uma frase para sua lápide, mas quem liga para isso hoje em dia?

Quando se é jovem e o mundo inteiro parece estar ao seu dispor e acreditamos ter uma vida inteira pela frente, torna-se muito fácil crêr em certos sofismas vendidos em embalagens atraentes e sedutoras pelos supermercados da rede otimistas s/a, empresa que possui clientes em larga escala mundo afora, quiçá até em outros planetas e galáxias, dizia ele a boca miúda em momentos raros de humor e sorrisos.

O que ninguém consegue prever, no entanto é quando essa longa e duradoura jornada se findará, sim pois a vida nos demite tal qual empresas, sem avisar e sem nos deixar saber o real motivo, a principal razão desse adeus.

Então apenas partimos.

Sua inadequação social ficava patente, sempre que não conseguia disfarçar o que brotava em seu coração, a definição mais plausível para rotulá-lo era simples, mágoa.

Mas será mesmo? Não haveriam outras razões para defini-lo, apenas mágoas, ressentimentos e frustrações? 

Definitivamente o coro dos contentes não combinava com sua pele, seus olhos e, sobretudo com sua alma de artista...

Logo, um sonhador incurável, mas isso não é paradoxal?

Sim, o mundo deve gerar infinitamente mais dúvidas do que respostas, era sempre a sua deixa em discussões mais acaloradas.

De quando em quando resolvia sair de casa à noite, apenas para olhar o céu negro e suas estrelas cintilantes, talvez um antídoto guardado desde cedo pela memória afetiva mais remota da infância sonhadora e perfeita.

Uma noite por fim declamou em seu auto deserto:

- “Existem dois mundos: o mundo que podemos medir com régua e compasso e o que sentimos com nosso coração e imaginação”.
― Leigh Hunt

Desde então não ouvimos mais falar nele. Dizem que as mágoas o levaram para tão longe,que até hoje não teria conseguido encontrar o caminho de retorno para sua antiga e solitária casa, onde ainda reinam a imaginação e a liberdade sem amarras.

Gabrielle Aplin - Space Oddity


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Refrigério


Havia alguma palavra perdida em sua mente durante a noite escaldante de verão. Doravante suas noites insones regadas a poesia, séries de tevê e música, já não mais resolviam sua procura quase insana por vestígios de um passado, não remoto e tão pouco recente.

Tudo caminhava assim, até que então em uma tarde quase perdida, ele a reconheceu por acaso quando a viu andando sozinha pela rua do comércio, próximo ao cinema da cidade. Sim era ela, avistada ao longe com seus cabelos loiros, sua pele semi bronzeada, seu olhar ainda de criança, sua boca carnuda realçada por um batom vermelho, o mesmo andar de outrora, aquele sabor de um charme estonteante.

Após quase uma década sem notícias, e nenhuma aparição, ele tremeu ao vê-la, quase tropeçou, não teve forças nem para acreditar no que os olhos produziam, quiça para mover-se. A palavra esquecida praticamente despencou em sua língua, vindo enfim à tona: Refrigério.

Retornou para seu pequeno apartamento, apenas pensava que tudo aquilo era ilusão, mais uma brincadeira sem graça do destino.

De quando em quando uma súbita dor irrompia em seus compartimentos mais secretos e reclusos, em outras ocasiões o álcool e as amantes casuais preenchiam suas rotas solitárias e vazias. Enfim, olhando para o quadro descrito não restava dúvida, isso tudo era o que sobrara após anos de autoengano, fuga, e de complacência.

A derradeira certeza naquele instante: Após a tempestade não haveria bonança e, muito menos refrigério algum.

Começou e terminou a madrugada ouvindo “You Don't Know What Love Is”, e não teria mesmo outra companhia – além do copo de gim e, da música de Chet Baker – até enfim cair em sono profundo.


Chet Baker – “You Don't Know What Love Is”