sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A Voz do Coração



Hoje me bateu uma sensação de desolação. Não sei ao certo o motivo, ou, motivos. Não estou deprimido, longe disso. A auto-observação traz por vezes esse sentimento, esse mistério entranhado lá dentro de nós.

Pensei em duas coisas que não estão obrigatoriamente entrelaçadas. Lembrei de Isak Borg, personagem do diretor sueco Ingmar Bergman em “Morangos Silvestres” (1957). Na película o professor de medicina revive suas memorias ao reencontrar sua antiga casa na estrada entre Estocolmo e Lund, aliás, dia desses fiz um ‘download’ da minha infância neste blog.

Foi aí que percebi que já fui muito, muito mais rígido comigo mesmo, porém hoje em dia tento ter uma atitude mais ‘relax’. Para quem tem um monte de palavras ali à espreita, fica difícil não se ‘envenenar’ de poesia, de dores, alegrias, sorrisos e lágrimas de escritores, poetas, cineastas, músicos, compositores... e isso tudo todos nós sentimos, mesmo aqueles que negam e fazem aquela pose fake de durão.

Não sou indiferente e, esse é o lado positivo. Ninguém quer ter a sensação de envelhecer mais rápido do que esperava, ninguém quer pensar seriamente no rito de passagem, ou de retorno, o Raul Seixas já dizia que antes de nascermos estávamos mortos, e pra lá voltaremos...

Até o Steve Jobs morre e, ontem foi o dia dele partir.

A segunda lembrança me veio através da leitura de uma carta do Caio Fernando Abreu para seus pais. Fui à lona, nocaute certeiro. Fiquei comovido pela sinceridade e coragem, e penso o quanto deve ter sido sofrido para ele - um escritor – que se sentia impotente, um observador compulsivo da vida que passava ali por seus olhos fixos em uma janela.

São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,


Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.


Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês, seu filho,
Caio

O que importa é ouvir a voz que vem do coração...

Trilha Sonora
Artista: Milton Nascimento
Música: Canção da América

2 comentários:

Lidce disse...

Deu vontade de comentar, mas não sei como nem o quê já que fiquei sem palavras diante de tamanha sensibilidade, tanto sua como do Caio Fernando Abreu. Só me resta admirar e sentir a beleza das palavras.

Jonathas Nascimento disse...

Você precisa colocar o dedo na garganta e vomitar seus sentimentos...

bjos