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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sofia



Ele descobriu algo de novo: o amor. Aos treze anos pela primeira vez sentia aquilo que faz a vida valer a pena.

Como um passe de mágica experimentou o aroma da fragrância do Jasmim e, percebeu que era o mesmo que exalava no caminho para a casa de sua Julieta. Mas Julieta na verdade chamava-se Sofia e, era uma jovem vinda de outra cidade para passar as férias daquele verão.

Era um verão escaldante, sol a pino, temperaturas causticantes. Tudo corria como outrora até que numa bela tarde seus olhos conheceram aquela garota loira, de olhos levemente esverdeados, esguia, com sardas, extremamente charmosa, corpo desenhado e de lábios bem carnudos. Seria a bela da tarde de Buñuel?

Essa foi a primeira imagem de Sofia que ele congelou em sua retina.

Ele não sabia muito bem como dizer – ou se – era realmente necessário converter aquela sensação trepidante em palavras. Seria possível traduzir um sentimento avassalador?

Passou os primeiros dias travando um embate surdo consigo mesmo. Seu maior adversário: a sua própria timidez.

No fundo sabia que era correspondido, pois o olhar perdido e, o sorriso radiante de Sofia não disfarçava que ali entre ambos havia um desejo mútuo.

Passaram três semanas em uma casa de veraneio junto a uma multidão de jovens e adultos. Naquela atmosfera às vezes febril era certo encontrá-los próximos fosse brincando, jogando conversa fora ou, até mesmo brigando por pequenas tolices da idade. A provocação e a sedução eram recíprocas.

Acordavam cedo e logo estavam seguindo o trajeto entre a casa e a praia. Os dois transformavam aquele trivial instante em uma espécie de jornada, uma autêntica exploração sensorial.

Durante as noites na hora de dormir a luz que irradiava da rua, iluminava os olhos dos dois apaixonados. Em seus sonhos aquele era o momento perfeito, quem sabe ali o primeiro e eterno beijo de amor.

As férias terminaram e Sofia retornou para sua cidade. A distância motivava aquele romance velado não consumado (será mesmo?).

Foram cartas e mais cartas meses a fio – enquanto “a realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu” batia à porta dos dois jovens enamorados.

Assim como uma tela de Cézanne perdida em algum sótão empoeirado e ordinário, onde sua beleza não podia ser apreciada, o tempo tratou de estancar aquela irresistível aventura.

Após anos sem noticias ele a reencontrou em uma viagem a sua cidade. Sofia estava casada e era mãe de três filhos.

Observou que a sua juventude continuava quase intacta, e por alguns instantes não hesitou em colocar-se no lugar do seu marido, mas preferiu guardar as boas recordações de uma década e meia atrás.

Sofia era a lembrança mais gratificante de um verão em sua juventude, talvez o melhor verão da sua vida.

Trilha Sonora
Artista: Elvis Costello
Música: She

sexta-feira, 13 de março de 2015

A Felicidade, Raul Seixas, Eu, A Borboleta e o Sábio Chinês...


Estou ministrando palestras de como não ser feliz, é isso mesmo, não se espante. O que mais ouvimos nos dias atuais são receitas de como ser feliz no amor, no trabalho, na vida enfim.

As igrejas estão com pessoas saindo pelo ladrão (e outras ficando lá dentro mesmo), os marqueteiros criam sempre peças publicitárias falando dela, a felicidade. Lair Ribeiro rodou o país falando da importância de ser feliz, e as músicas que mais vendem no mundo tecem uma variação sobre o tema.

A felicidade está focada no poder aquisitivo, em quanto você possui em sua conta bancária, em tudo que esse dinheiro poderá te render materialmente, é sempre a mesma ladainha do pragmatismo, o discurso motivacional da vitória, da superação, de como chegar a felicidade.

Pois bem, na minha filosofia de botequim, a impressão que tenho é que o homem nasceu para atender outras questões mais urgentes antes de ter tempo para racionalizar a tal felicidade e suas implicações. 

Mas desconfiem do meu discurso, pois sou tipicamente alguém que costuma ser do ‘contra’, negativo para outros, mas na real não é nada disso, apenas não faço parte do coro dos contentes, que costuma sorrir de tudo e de todos.

A felicidade tal qual vendem por aí é aborrecida, egoísta e superficial. Na verdade o que mais ouvimos no mundo hoje são mentiras de todos os estilos, tamanhos e variações. Não sei aonde se escondeu a verdade, mas as mentiras estão soltas por aí, prestes a pegar você, principalmente no golpe da felicidade.

Nessa me recordei da antiga canção de Raul (toca Raul) e de repente me peguei em dúvida:

-Será que eu sou
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou serei uma borboleta
Sonhando que era um sábio chinês...

Ps: Jamais moraria em uma rua, bairro, ou cidade com nomes de Felicidade, Jardim da alegria,  recanto da alma feliz e por aí vai...

Vitrola: Raul Seixas – O Conto do sábio Chinês





domingo, 1 de março de 2015

Fall


Estamos no final de março, e podemos observar lá embaixo sobre a metrópole, que o outono chegou...

Dói um pouco
Depois um pouco menos
Mesmo assim ainda é dor...

No final de tarde Mari suspira enquanto caminha sozinha pela rua. Observa que as flores vão desaparecendo dos canteiros, bem como, das árvores centenárias da grande avenida, ao mesmo tempo em que as folhas secas e avermelhadas vão espalhando-se pelo chão da cidade num colorido que anuncia o início do outono.

É uma tarde cinzenta e de frio, por isso seus passos são curtos e rápidos, há pressa de alcançar a estação mais próxima do metro, e ela ainda espera pelo milagre do efeito das gotas de Buscopan, na esperança que aquela dor chata simplesmente cesse.

Ao passar pela porta do “The Mills” uma lanchonete ali do bairro, ela escuta “Georgia On My Mind” de Ray Charles, isso de cara remete suas lembranças ao seu ex-namorado - Akira, que naquela hora provavelmente está bem longe dali, vivenciando seus primeiros dias em Xangai, na China, para onde foi estudar Mandarim.

De qualquer jeito, não serão aquelas gotas do remédio que irão cicatrizar sua angústia por ter recusado seguir com Akira até Xangai, e da mesma maneira que todas as folhas das arvores da cidade cairão ao longo do outono, seu sorriso será escasso e raro durante o restante do ano.

Vitrola: Curtis Fuller - 'Five Spot After Dark'



Vitrola: RAY CHARLES - Georgia On My Mind

sábado, 10 de agosto de 2013

Soul Love


Na sexta-feira, ela sempre repetia seu antigo ritual: Entre cinco e seis da tarde, esquecia-se de qualquer obrigação aborrecida e burocrática, aquelas rotineiras que vão minando as almas mais puras e indefesas destes hospícios corporativos.

Ela sacava de sua bolsa um mp3 e escolhia sempre a mesma canção. O próximo passo ritualístico era aumentar o volume e fechar os seus olhos, era sua busca pelo nirvana, ela jurava que neste momento mágico as luzes apagavam-se e uma canhão de luz iluminava sua face pálida e cansada pela semana de escravidão. 

A seguir ela rezava sua preze mais fervorosa enquanto fazia ouvir, ouvir a canção de seu mago...

O que viria a seguir são as ressonâncias de quem é refém da exaustão dos e-mails e telefones sem sal, sem graça, sem poesia... banalidades que nunca nos farão falta, pensava a funcionária mediana do andar intermediário, aquela que nunca superaria as expectativas...

Então naquele instante o que mais valia para ela era sonhar... sonhar... sonhar... enfim, pois afinal aquela era apenas mais uma sexta-feira.


Vitrola: David Bowie – Soul Love

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A Outra



Em um momento de lamento Nina apenas sorri enquanto a fumaça de seu cigarro espalha-se pela cozinha, numa típica tarde de segunda-feira.

A sua vida espelha o tempo e a eternidade – naquele instante de fruição – quando dela escorre uma lágrima quase seca esboçando um quadro de melancolia explicita e amargor palpável. Nina fica muda contemplando os azulejos de sua cozinha, olha para cima, olha para baixo e antevê que alguns estão prestes a cair.

Nina deixa que o tempo consuma seu último cigarro até o fim, da mesma maneira com a qual deixou o amor de seu homem esfriar na metodologia filhos, trabalho, dinheiro.

Nesta tarde a ela resta apenas cantar; “The Other Woman...”

Vitrola: Nina Simone: The other woman

sábado, 13 de abril de 2013

Match Point



Às vezes, quase sempre, diariamente eu tenho vontade de gritar game over! Mas daí eu lembro de que para vencer o jogo é preciso vencer mais sets do que o adversário, somar mais games, ter uma média infinitamente superior de bolas vencedoras, para daí administrar o emocional e enfim após intermináveis troca de bolas sentir que venci!

Mas como é difícil o tempo do começo até chegar o tempo da vitória! Este intervalo minucioso é o que chamo de inferno...

Vez por outra bate um desespero de olhar ao redor e não enxergar, ser incapaz em projetar a desejada vitória. Isso sem contar os zumbis que cruzam a quadra a toda hora, tentando tirar-me do foco, daquilo que no final das contas fará tudo valer a pena.

Eu bem que já desconfiava, mas agora tenho a certeza: A paternidade não tiraria de mim essa sensação impactante de deslocamento, da miserável e abençoada inadequação social.

Eu sinceramente pressinto uma benção, porque quando olho ao meu redor... Ah! Quanta gente fraca meu senhor!!
Pessoas que aceitam o inaceitável em troca de nada... Bem... esses zumbis jamais entenderão as minhas razões, o meu não contentar com o status quo seja lá do que for!

Ah! Você é do contra!!!! Não sou não pessoal, eu sou Oscar Wilde dizendo em letras garrafais e usando um alto falante bem potente em seus ouvidos:

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe", portanto o azar não é meu!

Puxa, que alivio!
Vou sacar para fechar o jogo em 6X0... Match Point! GAME OVER BABY! 

Ps: Robôs e zumbis enfiem suas opiniões goela abaixo, eu NÃO preciso delas!


Vitrola: The Style Council - Paris Match (versão rara com letra em francês ao final).

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Vida Tem Dessas Coisas



“Mas a noite aumenta a distância
Me perdi no seu caminho
Me encontrei falando sozinho
Sigo sempre sem destino
Pra te encontrar.

Pra conversar...
Te convencer...
Te confessar...
Quero só você”.

Na noite longa e chuvosa
os versos ganharam vida própria
então voaram pela avenida encharcada
pois a vida tem dessas coisas
sem as quais tudo irremediavelmente
parece não ter sentido algum.

Vitrola: Ritchie - A Vida Tem Dessas Coisas

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As Luzes do Amanhecer



Às seis da manhã a noite terminou. Para ele a vida dava o seu último suspiro, sem nenhuma gloriosa despedida, nem sequer lágrimas de remorso, ou dores por seu passado de amarguras.

Dias antes o último adeus. Ciente da proximidade inevitável do fim juntou suas derradeiras forças para ir de encontro ao seu cofre particular em um renomado banco.

Resgatou dele um objeto guardando no bolso direito de seu casaco de couro. Ao chegar em casa discou para o número desejado e deixou um recado na secretaria eletrônica, era uma espécie inconsolável de dizer adeus.

Partiu sem vê-lo, nem mesmo ao longe. Sentiu apenas o perfume cítrico que costumava inalar quando o encontrava secretamente em noites e dias inesquecíveis.

As cinco e vinte daquela madrugada pediu ao seu enfermeiro que colocasse a sua canção predileta no Cd Player instalado propositalmente ao lado de seu leito:

Toque repetidamente até o raiar do dia, ou até cessar a minha respiração. Foi enfático, mesmo agonizando, o corpo, a alma, o coração.

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure and the privilege is mine

No silêncio da manhã sobre o móvel do quarto - já vazio - o misterioso objeto: um porta retrato guardado como troféu, nele a imagem que carregou consigo para a eternidade.

Vitrola: The Smiths – There is a Light That Never Goes Out

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Loser



Anotei um número na minha agenda do celular. Meu dedo coça, minha mente pede, mas algo aqui dentro não cede, então não ligo.

Um número, um simples telefonema, e uma vida toda pode mudar...

Eis as aventuras e desventuras de um épico perdedor.

Vitrola: Bon Iver - for Emma

sábado, 29 de setembro de 2012

Puzzle



Em uma cidade longe, longe, muito distante de tudo...

Eu me recordo dela em uma foto montando um puzzle, tentando intuitivamente encaixar as peças de sua atribulada existência, mas sempre, sempre faltava uma peça para formar a imagem perfeita. 

Ela nunca finalizou o quebra-cabeça. E daí?

Imagens perfeitas não existem! Nossos olhos são limitados, mas nossa alma... Ah!!!!

Vitrola: Prefab Sprout - I Remember That

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tarde de Inverno



E nessa tarde de inverno os meus pensamentos serão insanos:

Pra dizer sobre a falsa gentileza que nos cerca todos os dias. Em um mundo cada vez mais de aparências, gestos espontâneos são banidos e classificados como politicamente incorretos, são atitudes de pessoas desajustadas socialmente, por isso cuidado com elas.

Chego à farmácia querendo apenas comprar alguma droga licita, mas logo terei que passar pelo comportamento padrão de classificação social. Olhares, sorrisos, por favor, por gentileza, obrigado, obrigado de novo, até logo... até logo, obrigado, volte sempre, obrigado pela preferência...

É o tedioso mundo da convivência pacifica cotidiana, a tal civilidade da qual costumamos nos orgulhar em tê-la e, por isso mesmo quando surge alguém outsider – fora desse contexto teatral, caricato, totalmente clean, estranhamos, criticamos e logo nos apressamos para tirar o “problema” de circulação, jogá-lo para bem longe de nós é claro.

Voltando a farmácia: A moça me pergunta quase tudo sobre a minha vida padrão, isso para ver se terei direito, ou não, a algum desconto da ‘bondosa’ indústria farmacêutica (patifes).

Seria legal se vez por outra eu de fato realizasse o meu desejo inconveniente. Das duas uma: Ou declamaria uma poesia a funcionária que apesar do esforço de seus patrões, não se tornou um robô, e sendo assim até a convidaria para um drink, ou, me estranharia com ela, ou com o que sobrou de seus sentimentos humanos. 

Porque é muito bom vez por outra estranhar-se consigo mesmo e com a tal sociedade em que vivemos, parece saudável dizer o que todo mundo tem vontade e nunca o diz por medo de ser rotulado de LOUCO (A), ou de arrumar algum tumulto em lugar público. Afinal na rua todos precisamos ser compreensivos e, por isso mesmo as neuroses apenas multiplicam-se como os coelhos no quintal do vizinho.

Vitrola: Beastie Boys – I Don't Know

domingo, 16 de setembro de 2012

Os Rastejantes do Tapete



Havia um feixe de esperança naqueles olhos cansados pela intranquilidade de não ser mais notado.

Havia ainda um equilíbrio cinza em seu espirito quase agonizante, o retrato em preto e branco de uma vida outrora tecnicolor.

Os homens e sua eterna busca,
Os homens e seus remédios ou a falta deles,
E as farmácias lotadas, filas, filas...senhas, senhas...
Os homens e suas drogas para sorrir, sonhar, viver eternamente, relacionar-se.
Os homens e suas ilusões perdidas.
E as igrejas eletrônicas falam em fé, seduzem exibindo cgs com suas contas bancárias que certamente abrirão as portas do mais lindo paraíso.

Os homens... Sim, os homens continuam sozinhos.

Ele assisti a mais um alvorecer decrepito sentado em uma mesa de bar, sozinho, ele um cigarro e um copo amargo cheio de desesperança, naquela mesa de bar até o raiar do dia... até desfalecer seu ego, ou até escutar:

-Senhor Loser informo que estamos fechando a casa.

Até amanhã! Tenha um bom dia.

Vitrola: Genesis – The Carpet Crawlers 1999

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dance, dance, dance



“Acordo. Onde estou? Reflito. Não só reflito, como também me questiono: - Onde estou? – No entanto, esta pergunta não tem nenhum sentido, pois sei exatamente qual é a resposta. Aqui é a minha vida. O cotidiano da minha existência. Algo subordinado à existência real denominada eu. Aqui é um lugar em que, tendo eu aprovado ou não certas ocorrências, fatos e circunstâncias, elas se tornaram parte de minha existência...”.

Em Dance, Dance, Dance (1988) Haruki Murakami descreve uma aventura criativa “pop kafkiano” ambientada em um hotel estranho e, onde a relação entre suas personagens (também estranhas) é entremeada com o universo do rock e da música pop do século 20. De Paul Mauriat à Duran Duran, passando por Dylan, Clapton, Bowie, Human League, etc.

O leitor vaga pelos corredores, quartos, recepção e outros recantos do Hotel dos Golfinhos numa engenhosa e cativante estória que aos olhos do leitor sugere rotinas, dados e pinceladas do cotidiano nosso de cada dia, seja Londres, Tóquio, BH, sampa ou Bombaim.

Como vivo entre um hotel e outro, tendo a estrada como ponte entre universos distintos, me agrada muito a percepção sutil e humorada do escritor maratonista.

O escritor japonês é um dos meus favoritos por identificação e admiração pessoal. “Tenho três coisas que me ajudam...

-um gato, música e livros. (isso é singelo). Belo!

Além do mais o cara ainda é maratonista, eu também corro, não maratonas, mas gosto de ouvir o meu corpo em ação.


Na vitrola: Bob Dylan - It's all over now baby blue

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sem Surpresas



Era uma sexta-feira daquelas em que clamamos a todos os santos pela providencial chegada da segunda-feira.

Afrouxei a gravata e adentrei no elevador sem muita pressa. Ganhei o rumo da rua – um solitário sonhador em meio ao rush da Avenida Paulista, mais um na multidão, perdido na procissão dos pecadores da seis da tarde com um nó enorme preso na garganta.

Um vento frio vindo a leste batia contra o meu rosto e a garoa caía formando um balé esfumaçado junto às luzes na fria noite paulistana, enquanto meu mp3 executava “No Surprises” do Radiohead.

A cena parecia melancólica – ainda mais com o eco das buzinas de carros e motos no sentido da Consolação, mas não existe consolo algum no anonimato solitário da metrópole.

Era tudo que eu buscava naquela noite, um antidoto contra a indiferença, ante a monotonia cotidiana de nossos pequenos e colossais dilemas existenciais.

Radiohead - No Surprises

sábado, 26 de maio de 2012

Um Cisne, eu?



Eu me lembro de você anos atrás, tão infeliz, autodestrutivo, sem humor, agressivo, lutando de maneira errada. Lembra-se disso?

Parecia tanto uma criança quando começa a andar de bicicleta com as famosas rodinhas, todo convicto que o caminho seria fácil, sem dificuldades. Afinal você aprendeu que teria sempre as rodinhas ali ao lado para poupa-lo de todos os infortúnios desta terra.

Eu me lembro do quanto você sonhava com algo que parecia impossível, irreal, fora de orbita. Foram tantas ciladas, tombos, escorregões, poços fundos e escuros. Você quase sucumbiu...quase!

Lembra-se disso?

Então um dia desses eu sonhei que você era um artista. Foi o sonho onde você parecia a pessoas mais feliz do mundo. De repente aparecia alguém, ou, alguéns e começavam a te dizer:

-Ei Você! É você mesmo aí, você têm muita sorte, pois trabalha com o que gosta e você sabia que apenas 1% da população mundial consegue isso durante a vida?

Acordei!

Este seria sim um diálogo entre a minha alma e a minha mente, entre o impossível e o possível, entre aquilo que semeamos e plantamos, entre o que sonhamos e nunca desistimos por alguma força externa, interna, não importa...

O caminho mesmo sendo tortuoso é aquele que necessitamos trilhar, seja sob sol, chuva, fartura ou privação, e não falo de autoajuda, falo de sobreviver, de conviver, de bem viver com tudo que a vida nos oferece de bom e ruim. São extremos? Sim, o ser humano oscila entre a arrogância e a mágica de um sorriso puro, ou apenas um olhar que brilha mais do que uma constelação inteira.

Penso que hoje você pode olhar no espelho e dizer a si mesmo:

Sim, você apesar de tudo, ainda manteve algo especial no seu olhar, algo que o difere de ontem, mas... não, não, não se convença muito, porque você tanto pode ser um belo cisne colorido, como também pode ser aquele patinho feio, ranzinza, tal qual o pato da Disney, lembra-se disso?

A vida é mesmo um dia de cada vez.

Paul McCartney - The Long And Winding Road

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ela



Ele descobriu algo de novo: o amor. Aos treze anos pela primeira vez sentiu aquilo que faz a vida valer a pena.

Como um passe de mágica experimentou o aroma da fragrância do Jasmim e, percebeu que era o mesmo que exalava no caminho para a casa de sua Julieta. Mas Julieta na verdade chamava-se Sofia e, era uma jovem vinda de outra cidade para passar as férias daquele verão.

Era um verão escaldante, sol a pino, temperaturas causticantes. Tudo corria como outrora até que numa bela tarde seus olhos conheceram aquela garota loira, de olhos levemente esverdeados, esguia, com sardas, extremamente charmosa, corpo desenhado e de lábios bem carnudos. Seria a bela da tarde de Buñuel?

Essa foi a primeira imagem de Sofia que ele congelou em sua retina.

Ele não sabia muito bem como dizer – ou se – era realmente necessário converter aquela sensação trepidante em palavras. Seria possível traduzir um sentimento avassalador?

Passou os primeiros dias travando um embate surdo consigo mesmo. Seu maior adversário: a sua própria timidez.

No fundo sabia que era correspondido, pois o olhar perdido e, o sorriso radiante de Sofia mal disfarçavam que ali entre ambos havia um desejo mútuo.

Passaram três semanas em uma casa de veraneio junto a uma multidão de jovens e adultos. Naquela atmosfera às vezes febril era certo encontrá-los próximos fosse brincando, jogando conversa fora ou, até mesmo brigando por pequenas tolices da idade. A provocação e a sedução eram recíprocas.

Acordavam cedo e logo estavam seguindo o trajeto entre a casa e a praia. Os dois transformavam aquele trivial instante em uma espécie de jornada, uma autêntica exploração sensorial.

Durante as noites na hora de dormir a luz que irradiava da rua, iluminava os olhos dos dois apaixonados. Em seus sonhos aquele era o momento perfeito, quem sabe ali o primeiro e eterno beijo de amor.

As férias terminaram e Sofia retornou para sua cidade. A distância motivava aquele romance velado não consumado (será mesmo?).

Foram cartas e mais cartas meses a fio – enquanto “a realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu” batia à porta dos dois jovens enamorados.

Assim como uma tela de Cézanne perdida em algum sótão empoeirado e ordinário, onde sua beleza não podia ser apreciada, o tempo tratou de estancar aquela irresistível aventura.

Após anos sem noticias ele a reencontrou em uma viagem a sua cidade. Sofia estava casada e era mãe de três filhos.

Observou que a sua juventude continuava quase intacta, e por alguns instantes não hesitou em colocar-se no lugar do seu marido, mas preferiu guardar as boas recordações de uma década e meia atrás.

Sofia era a lembrança mais gratificante de um verão em sua juventude, talvez o melhor verão da sua vida.

Elvis Costello - She


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aventura Pessoal



Lá fora eu vejo um gato branco e preto com uma mancha escura próxima ao seu focinho parado na esquina. Ele espera o carro passar para subir na sua árvore favorita da praça, faz um pouco de frio, mas não chove em São Paulo. O gato, o céu, a praça, são insinuações do meu cotidiano nem sempre regrado, nem sempre ensolarado, mas sempre personalizado.

Não sou mais um cara de badalações (se é que um dia já fui) estou muito mais para tardes preguiçosas, passeios curtos e lugares discretos. A minha aventura é interna, viajando nos pensamentos e suas variantes.

Ventura Highway - Nei Lisboa

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Notícias do Céu



Hoje eu acordei meio estranho. Desde cedo percebi que algo novo acontecia em minha vida. Abri os olhos e quando dei por mim estava rodeado por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Billie Holiday.

-Estou no céu! Morri! Fui pro beleléu! Bati as botas! Subi!

Foram minhas primeiras palavras ao perceber que o trio que me rodeava eram anjos incumbidos de me receber no paraíso. Não fiquei nem um pouco nervoso, nem poderia com essas vozes me seduzindo eu queria era mesmo ficar nas nuvens eternamente.

Então agora mando noticias do céu aos meus amigos que continuam vivos, respirando, sonhando, brigando, correndo atrás de tantos assuntos triviais, que aqui no paraíso a gente sequer lembra que eles, os problemas, existem. Será que existem mesmo?

Não sei meus caros, mas tudo o que eu sempre quis eu acho que agora encontro aqui...

Sou mais afetivo, menos ansioso, me iludo mais facilmente, me sinto leve, enfim, estou apaixonado com minha nova vida! Me descobri no além vida! Não, não vou comungar de palavras positivas impunemente, eu morri, e percebi que o renascer é sempre mais belo que o simples ato de nascer.

Tenho feito tantas coisas diferentes por aqui que mal tenho tempo para chorar as saudades... Sim, porque a saudade existe mesmo depois que você morre, por exemplo, nenhum morto me tente convencer que não sente falta do ar, das ruas, do clima, do aroma e da beleza de Paris, ou quem sabe do visual bucólico do fim de tarde da histórica Olinda e do frenesi imagético de São Paulo às seis da tarde.

É, de louco todo mundo tem um pouco... Já ouvi estra frase aqui em cima!

Mas o que me prende por hora são as vozes angelicais desse trio, e quando acordar, se é que irei despertar novamente na terra, pensarei que tudo isso não passou de um delírio de alguém que ultimamente anda insone.

Por um lado é uma pena, por outro temo que ainda não esteja totalmente preparado para tanta felicidade em um único e singelo instante.

Sarah Vaughan – Misty (Live 1964)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Cry Me A River



Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

Foi ali, às margens do Sena que seu coração bateu diferente pela última vez e, agora numa noite fria de janeiro ela tinha apenas a luz do luar como companheira para agasalhar seu coração.

As flores do outono haviam murchado e caído, o que se via era uma maquiagem de esperança, tanto na estação quanto em sua alma...

Eu sempre desconfio de quem solta a frase:

-Eu gosto muito de fulano de tal, muito mesmo, mas...

Não existe mas quando amamos alguém genuinamente, posso ser ingênuo, mas sou eu mesmo e minhas contradições, vícios e virtudes, sem hipocrisia...

Canta Diana que eu escuto.

Trilha Sonora
Artista: Diana Krall
Música: Cry Me A River

domingo, 15 de janeiro de 2012

Domingo (Reprise)



Sem inspiração só me resta reprise:

Acordei naquele domingo cansado da vida. Não levantei cedo, não tomei café, não escovei os meus dentes, não sorri quando avistei a Fedora.

Ficaria um dia inteiro descrevendo os nãos daquele dia, prefiro então enumerar outras causas.

Primeiro: Porque alguém é feliz simplesmente por ter um domingo de folga?

Segundo: Será que existem outros pratos além da lasanha e da famigerada macarronada para se comer aos domingos?

Liguei o som no talo e ouvi Morrissey sussurrando:

Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey

Pronto: Acabara de preencher o vazio do meu domingo, pelo menos por quatro eternos minutos.

Depois disso li Neil Gaiman, escrevi alguns versos, lembrei de alguém (sempre, sempre a mesma história), e no final da noite após comer um omelete de queijo e presunto com ervas, cantei sozinho “Everyday is Like Sunday”, me deu uma vontade pavorosa de chorar, mas era apenas mais uma noite solitária de domingo em minha vida suburbana.

Bem o dia seguinte seria outra segunda-feira.

Trilha Sonora
Artista: Morrissey
Música: Everyday is like Sunday (Live 2004)