O seminal álbum
do cantor e compositor Marvin Gaye “What’s Going On” – lançado em 1971, é
passeio obrigatório a quem admira a sonoridade do soul e R&B
norte-americano.
Com ele o artista conseguiu alterar sua trajetória musical, saindo
das canções de cunho meramente triviais sobre o cotidiano e adentrando no
terreno arenoso e profundo das lutas sociais e políticas do seu país,
entremeado por referências espirituais e, como toda grande obra de arte, ainda
hoje seus conteúdos permanecem universais.
É como se o
disco fosse narrado por um combatente da Guerra do Vietnã que acaba de retornar
aos Estados Unidos, descobrindo então que os soldados americanos sacrificados
na Ásia foram somente joguetes nas mãos inescrupulosas dos senhores da guerra e de seus interesses capitalistas.
Aqui uma
releitura dos irlandeses do U2, que nunca esconderam a importância da
influência da música negra norte-americana em seu trabalho.
Quando a tristeza triunfa sobre a esperança e a claridade da manhã já não te anima mais Quando o verão aproxima-se mas você se sente em pleno inverno e tudo o que consegue pensar é em estar sozinho
É porque de fato existe um alerta no ar: a escuridão agora parece ditar o tom, tanto ao longo dos dias quanto na sutileza das noites, e a luz parece inexistir para alguém como eu... São vozes silenciadas olhos marejados crianças inocentes sorrindo sem saber que o futuro será apenas um arremedo da liberdade a mesma pela qual batalhamos tanto, duramente naqueles anos passados, Você ainda é capaz de se lembrar disso? “A memória é uma ilha de edição” Pois agora é a escuridão quem dá o tom sim, e o verão se aproxima mas me sinto no inverno preferindo ficar sozinho não quero a multidão errante queria apenas ter a paz dos justos... Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada Agora não espero mais aquela madrugada Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada O brilho cego de paixão e fé, faca amolada...
Uma espécie de volta para casa. A
melhor hora do dia, partir em retorno,
Debandar do hospício...
Eu me lembro muito bem do quanto gostava e gosto deste disco
do U2, um álbum extremamente lírico.
E de repente aparece um jogador de bola na TV, que ganha um absurdo por correr atrás de uma merda de bola, e diz que ralou muito, comeu o pão que sei lá quem amassou, etc e tal, um drama de fazer corar qualquer pessoa honesta, pra dizer que a empresa de telefonia tal muda a vida e sei lá mais o quê...
É este tipo de picaretagem que move o mundo de hoje, socorro eu quero descer, pára o bonde!
É
engraçado como topamos com pessoas que nos fazem relembrar nossa adolescência,
nossos momentos de busca e construção. Na verdade hoje eu considero que ser uma
metamorfose ambulante seja algo saudável, pra que deixar os parafusos tão
apertados?
Ontem
não foi diferente, e aí me bateu um certo gosto de aventura, de alegria espontânea,
de mandar o certo e o errado pro inferno... ah! Vida você ainda me
surpreende...
You're
dangerous, 'cos you're honest.
You're dangerous, you don't know what you want.
Well you left my heart empty as a vacant lot
For any spirit to haunt.
You're an accident waiting to happen
You're a piece of glass left there on a beach.
Well you tell me things
I know you're not supposed to
Then you leave me just out of reach.
Existem
pessoas que são ao pé letra a poesia livre desta bela canção do U2, quero
dizer, são a delicadeza selvagem de quem ainda não perdeu a poesia essencial da
vida... Liberdade!
Imagino duas avenidas: Chove e faz frio numa, chove e faz calor na outra. Vejo pessoas andando pelas calçadas, algumas com passos curtos e apressados, algumas sorrindo, outras apenas compenetradas focando o chão, o calçamento adiante.
Numa das avenidas é fácil encontrar nas mãos dos transeuntes doces gelados (sorvetes), pouca roupa, óculos escuros para proteger os olhos, um clima de veraneio, mesmo distante da praia.
Na avenida do frio e da chuva o que eu consigo avistar são guarda-chuvas abertos que esbarram pelo caminho, muitos agasalhos, expressões faciais contraídas diante do vento gélido.
Noite e dia. Amor e ódio, calor e frio, são diferenças que marcadamente estamos expostos em nosso cotidiano. Como lhe damos com isso é outra história, às vezes de letra, noutras com muito barulho e algum destempero, mas sempre me veem a mente o toque humano. Um polonês que infelizmente já partiu criou com tenacidade e muita sensibilidade a trilogia humana, baseada nas cores:
A liberdade é azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha!
Nossos erros e falhas são parte essencial para que sejamos sempre, ainda por mais algumas gerações, pessoas andando pelas calçadas no frio ou calor, alegres ou tristes, desesperadas ou irritantemente felizes, mas acima de tudo longe do desejo insano de um dia parecermos com robôs.
Fiquei pensando com os meus botões a tarde inteira e, não cheguei a nenhuma conclusão (ainda bem). Por que as pessoas andam matando as outras no trânsito com tanta frequência? Por que alguém com 19 anos pega um carro de luxo e causa um fuzuê daqueles dignos de filme de ação e ainda tenta fugir da policia?
Nossas leis são frouxas, nosso sistema judiciário é omisso, nossa sociedade é conivente com este tipo de coisa. No Brasil que tem dinheiro quer mesmo é matar os outros que atrapalham o desfile de seus belos e malditos carrões nas ruas entupidas de carros, todo mundo quer ter um carro. Engraçado, ninguém deseja ter paz!
Se você mora em São Paulo é bom ter cuidado ao andar pelas ruas, tenha medo de carros de luxo guiados por idiotas alucinados, tenha muito medo sempre que ouvir uma conversa que diz que o país não avança graças aos nordestinos, tenha muito medo de ser honesto, porque por essas bandas o que impera é mesmo o $$$$$, vil metal.
Não precisa pensar muito para descobrir que o mundo anda mesmo bem complicado.
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.
Ps: Talvez, é provável, não sei, quem sabe, mas U2 e Vinicius de Moraes podem até não combinar. Mas este blog vive do cotidiano, de um pouco das minhas observações, reais e ficcionais, logo, U2 e Vinicius passam a ser uma dupla esteticamente fascinante.
Guilherme Isnard entoa um dos hinos do U2 dos anos 80, “New Year’s Day” música que fala da situação politica da Polônia daqueles tempos.
O arranjo pendeu para um standard jazzístico e ficou diferente numa levada bem insinuante. Para combater o mau-humor dessa manhã chata, sim, elas existem para todos.
Houve um dia em que eu amei esta canção. Talvez amasse alguém que estava escondida nela, em seus versos, na sua melodia.
Vendo agora percebo que procurava a mim mesmo e, ainda gosto da música de Bono e cia, aqui em sua melhor versão ao vivo, na inesquecível e insuperável Tour da Zoo TV.
“Prestes a completar 40 anos sem ter realizado nada do que pretendia realizar – sem jamais ter alcançado a criatividade profunda à qual me dediquei todo esse tempo –, me sinto ocupando uma posição menor, débil e obscura, a que cheguei não por destino, mas por culpa minha, como se me tivessem faltado, a certa altura do caminho, o espírito e a coragem necessários para me encaixar com competência nos moldes que iam surgindo. Penso em Leander[1] e em todos os outros. Não é por serem histórias de fracasso; não é isso que assusta. É que esses registros são banais, eles não têm a menor importância; é porque Leander, caminhando no jardim ao entardecer, padecendo de uma paixão violenta, não interessa a ninguém. Não importa. Não importa...”
John Cheever
E lá estava eu no meio da multidão para prestigiar o U2 pela segunda vez na vida. De cara veio uma nítida impressão de grandeza, imponência e limites tecnológicos que parecem nunca intimidar os irlandeses. Esse talvez seja o ponto alto da carreira e da longevidade da turma do U2.
No show as colagens artísticas comuns ao universo da banda, da pintura à arte eletrônica, da cultura do videoclipe a estética holografica, pois no final das contas, o palco e seus telões acoplados são a disseminação desta porção tridimensional da cultura cibernética do presente século.
O show então é uma viagem espacial – desde sua introdução ao som de David Bowie “Space Oddity” (linda/maravilhosa) até o epilogo quando no telão a banda homenageia Elton John e Yuri Gagarin na balada “Rocket Man” – porém é uma jornada nas estrelas sem arredar os pés deste planeta, ou seja, sem um diário estelar.
Há momentos em que nos pegamos enraizados e enfeitiçados de maneira tão profunda que não conseguimos esquecer concretamente da nossa própria existência. E para isso basta olhar para Bono, The Edge, Adam e Larry em ação em canções como “I Will follow”, “Sunday Blody Sunday”, a memorável “I still haven't found What I'm looking for” – quando Bono praticamente não cantou, pois os shows na América do Sul não são feitos por eles (U2), mas sim por nós espectadores, advertiu o cantor.
Enfim, basta recordar que há trinta anos eles já faziam parte da vida de quase todos que estavam naquele estádio, e daí parte a certa melancolia de si olhar no espelho e ter a certeza que o tempo passou, para você e também para o U2.
Em meio a mensagens sociopolíticas de engajamento e ao trivial e previsível jogo de cortejo aos tupiniquins, “eu sou brasileiro e não desisto nunca!”, solta um Bono bastante rouco, com uma voz que em nada faz lembrar o vigor da década de 80. E assim o baixinho foi tocando o show à sua maneira, às vezes no piloto automático para seu próprio conforto e a alegria das gerações mais novas (por vezes mais complacentes, se preferir mais leves a nós quarentões chatos), outras com alguma pálida energia criativa que ainda lhe resta por trás da figura caricata da qual se tornou refém de si mesmo nos últimos anos.
Vieram canções emblemáticas e feitas para grandes arenas como “City Of Blinding Lights”, “Walk On”, “Pride” e outras com adornos de contemporaneidade como “Crazy Tonight” com direito a trechos de “Relax” hit dos anos 80 do Frankie Goes To Hollywood, além de uma participação de Seu Jorge cantando com Bono, (os dois bem desafinados por sinal) na versão bossa-nova de “Model” dos alemães do Kraftwerk.
Talvez o único momento que tenha fugido ao script certinho do show foi a inserção no setlist de “Zooropa” que há anos não era executada pela banda ao vivo. Essa é uma canção profética que permeia como a tecnologia e o consumismo vão rondando e engolindo multidões ao redor do planeta, curiosamente parece servir como antítese para o próprio show do U2 em 2011.
Depois de duas horas e pouco de show chega a hora do adeus com “Moment of Surrender”, e à minha frente eu antevejo um Bono que poderia ser eu mesmo em meus momentos de instabilidade temendo sair do palco e encarar a própria imagem em seu camarim. Por isso tudo não consegui evitar a lembrança das lentes perturbadoras do escritor John Cheever (citação acima).
Meia-noite no Morumbi, luzes acessas, é hora de encarar a multidão nas ruas, só que eu não sou o Bono, por isso mesmo demorei um pouquinho pra chegar em casa e olhar o espelho.
Eles estão chegando. Teremos uma overdose de U2 nos próximos dias. Não sei ao certo o que quero ouvir dia 13 no Morumbi. Das canções antigas talvez realmente eu queira ouvir Bad, Even Better than the Real Thing, e certamente as belas Ultraviolet (Light My Way), e Love is Blindness que eu adoro.
É... parece que eu já sei qual seria mais ou menos um set bacana para este show, mas surpresas virão, resta esperar.
E o poeta adverte:
A fotografia
nos dá a versão fotográfica do real.
Há outras versões.
Os gravadores
inventam o real
e nem por isso sua versão do real
será menos real.
Por isso também
pode-se dizer
que há um real que só Rubem Grilo inventa
-Um real cuja essência é gráfica
e de tal intensidade
que suas formas
limpas de falso afeto
nos cortam como lâminas.
Ferreira Gullar
Trilha Sonora
Artista: U2
Música: Love is Blindness and Can't Help Falling In Love