Pra quem reclama da vida
pra quem procura uma fuga
uma muleta para apoiar-se
numa rota qualquer
para desaparecer sem lutar...
Eu vejo,
Eu escuto,
sim
descrevam-me o que veem agora
ali
naquela artista
que trava um duelo
consigo mesma
com a dor
de ser jovem
com a fama
de ter brilho
sim
descrevam-me
se o talento venceu
o demônio da doença
que degenera passo a passo
tendão a tendão
a musculatura
das mãos daquela menina
que ceifa seus sonhos
trazendo ventos e tempestades
e mesmo assim
ainda vejo
melhor,
ouço a sinfonia
do desespero
e ninguém bate em retirada
Música!
Música!
Todos querem ouvir música.
Não existe fuga
quando amamos
não importa se ela não toca mais o instrumento
Ela me fez sonhar até o final.
Assistir a um pai e uma mãe enterrando uma filha é sempre cruel, parte o coração quebranta a alma. O ritual da passagem soa como a regência de Herbert Ritter von Karajan.
ESTHER LEVIN era musicista, possuía a sensibilidade artística e ficaria comovida ao ver a tristeza de seus pais e irmãos na manhã desta triste quinta-feira de janeiro.
O tempo parecia ter parado por alguns instantes, é aquele momento de reflexão, onde nada parece mais importante do que a razão, que ao mesmo tempo, parece inexistir quando alguém jovem parte antes dos pais. Enfim, choque de realidade queridos, não é aquela ladainha que virou termo comum, embasbacado e sim, quebrar vez por outra o maldito corre corre cotidiano para avaliar se de fato vale a pena perder tempo com tanta mesquinharia enquanto o que nos resta de vida continua seguindo, sem hora e nem aviso de chegada final.
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
Fernando Pessoa, 3-9-1924.
Haja o que houver...
Espero por ti.
Trilha Sonora Artista: Madredeus Música: Haja o que Houver