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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Garrafa


Arrastando-se tal qual uma cobra pelo deserto
A vagar
Sem hora para chegar
Alguém lhe diria que ele jamais conseguiria

Viver
Sentir
Amar ...

Do seu jeito
Mesmo que torto,
avesso, sem rótulos aparentes.

Mas torto para quem?

Naquela tarde caótica
Inundada de calor e fé
Envolto pelo silêncio
da solidão de um oceano
Pensou apenas consigo:

-Eu sou a mensagem jogada ao mar em uma antiga garrafa...

Provavelmente um dia alguém, quem sabe, a lerá.


Boby Dylan – If You See Her Say Hello

terça-feira, 3 de junho de 2014

Northwood e Eu...



Houve roteiro?
Talvez uma inflexão dos rumos
Pois existem os dias aborrecidos
Sem nenhum frescor
Nada além do vento frio
Que não cansa de soprar a soleira da porta da cozinha
Nessas horas a minha vida pode ser semelhante
A estação de Northwood...
Vitrola: Don't Think Twice It's Alright - Bob Dylan

sábado, 15 de março de 2014

Curinga


Então vamos as novidades do dia:
Faltam 291 dias para o final do ano!
Oba!!!

O ano mal começou e eu já estou desejando o seu fim...
Alguma coisa errada nisso...

Há exatos 24 anos Fernando Collor de Mello tomava posse em Brasília...
Bem, o resto da história todo mundo lembra um pouco não é, apesar de alguns aspectos continuarem nebulosos até os dias de hoje.

E como diria Dylan na exultante “Jokerman”,

Well, the rifleman's stalking the sick and the lame,
Preacherman seeks the same, who'll get there first isuncertain.
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks,
Molotov cocktails and rocks behind every curtain,
False-hearted judges dying in the webs that they spin,
Only a matter of time 'til night comes steppin' in…

Alguém por aí na rede me conte, ou, me cante uma novidade,
pois é isso que me faz cansar e torcer para 2014 ir embora logo.

Sr. Curinga, levante-se a vida continua...

Vitrola: Bob Dylan - Jokerman


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Jonathas Dylan



Hoje amanheci Dylan, de corpo e alma, Bob Dylan. Provavelmente o músico mais importante do século 20 por sua influência ainda hoje no cenário do que chamamos música pop. Mas o que seria da tal música popular contemporânea sem a existência de Bob Dylan?

Bem... difícil imaginar, mas com certeza os Beatles não teriam uma segunda metade do seu trabalho tão relevante quanto tiveram depois de compreenderem a essência visceral da obra de Dylan, isso é o mínimo que posso dizer.  

Like a Rolling Stone foi lançada em 1965 no álbum “Highway 61 Revisited”, é a canção onde Dylan consegue traduzir muito de sua inquietação artística, deixa fluir toda sua inadequação ao mundo.

Dylan nasceu em Duluth  e cresceu em Hibbing, ambos no estado de Minnesota, e desde cedo percebeu que ali nada, absolutamente nada o agradava. Foi assim que intuitivamente começou a buscar seu lugar neste mundo de deus, e um dia depois de muitas idas e vindas chegou à Nova Iorque. Seus passos foram constantes na busca por espaço para expressar sua visão sobre o que via cotidianamente nos Estados Unidos e no mundo.  

Woody Guthrie, um artista esquecido que usava um violão com a inscrição “Esta máquina mata fascistas” foi a maior inspiração de Dylan em sua carreira e vida. O fato de encontrar Woody internado em um manicômio acentuou ainda mais seus questionamentos sobre o que era normal, certo ou errado na sociedade consumista, elitista e preconceituosa da América branca do século 20.  

Há um ponto que me agrada muito neste artista: sua indagação sobre qual o beneficio que um artista “alegre” traz para a vida real? 

Entenda-se aqui que o alegre sem critérios, sem questionamentos, onde tudo parece maravilhoso sempre – beira a idiotização, a alienação completa do real, logo, esse artista sem critérios não pode ir além da falta de compromisso e, por isso mesmo que Ivetes, Claudinhas, Luans e etc fazem tanto sucesso neste estágio da sociedade da informação e da falta de conhecimento. Pensar é tudo que a maioria das pessoas não quer fazer hoje em dia quando estão fora de suas jornadas trabalhistas, então “ocupam” suas mentes com o nada, aliás ninguém pode no mundo atual ficar sem fazer nada, o ócio virou crime, e pensar na própria vida idem... Você precisa de entretenimento... é a mensagem constante nos meios de comunicação, redes socias e o escambau a quatro. 
  
Por essas e outras hoje e sempre eu sou Bob Dylan, sem me esconder, deixando mesmo que muitas pessoas me achem chato, emburrado, sei lá  o quê! ah! não sou nada disso, apenas não estou aqui a passeio... 

Jonathas Dylan prazer... ao seu dispor!

Vitrola: Boby Dylan – Like Rolling Stone

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dance, dance, dance



“Acordo. Onde estou? Reflito. Não só reflito, como também me questiono: - Onde estou? – No entanto, esta pergunta não tem nenhum sentido, pois sei exatamente qual é a resposta. Aqui é a minha vida. O cotidiano da minha existência. Algo subordinado à existência real denominada eu. Aqui é um lugar em que, tendo eu aprovado ou não certas ocorrências, fatos e circunstâncias, elas se tornaram parte de minha existência...”.

Em Dance, Dance, Dance (1988) Haruki Murakami descreve uma aventura criativa “pop kafkiano” ambientada em um hotel estranho e, onde a relação entre suas personagens (também estranhas) é entremeada com o universo do rock e da música pop do século 20. De Paul Mauriat à Duran Duran, passando por Dylan, Clapton, Bowie, Human League, etc.

O leitor vaga pelos corredores, quartos, recepção e outros recantos do Hotel dos Golfinhos numa engenhosa e cativante estória que aos olhos do leitor sugere rotinas, dados e pinceladas do cotidiano nosso de cada dia, seja Londres, Tóquio, BH, sampa ou Bombaim.

Como vivo entre um hotel e outro, tendo a estrada como ponte entre universos distintos, me agrada muito a percepção sutil e humorada do escritor maratonista.

O escritor japonês é um dos meus favoritos por identificação e admiração pessoal. “Tenho três coisas que me ajudam...

-um gato, música e livros. (isso é singelo). Belo!

Além do mais o cara ainda é maratonista, eu também corro, não maratonas, mas gosto de ouvir o meu corpo em ação.


Na vitrola: Bob Dylan - It's all over now baby blue

sábado, 12 de maio de 2012

Um Tagarela em Paris



“il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta).

Eu mergulhei nas palavras da velha catedral francesa. Envolto pela garoa fina que caia do branco céu parisiense. Eu andava sozinho pela île de la Cité acompanhado do vento cortante do inverno europeu, abismado com a força libertaria da distancia, de pisar ruas seculares e respirar a bruma do Sena.

Eu era Dylan cantando Blowin’ in Wind e Quantos caminhos um homem precisa percorrer antes, que seja chamado de homem?

Mas então vezenquando fico cá a pensar: eu sei que ali eu nasci, pelo menos no que diz respeito ao meu amor por uma terra estrangeira da qual sinto cheiro quando puxo pela memória as manhãs charmosas de janeiro. Estou sempre correndo na direção dos Jardins de Luxemburgo por entre as cirenes da quase histérica policia francesa que atravessa o bulevar de Montparnasse em disparada perseguição. Só não sei ao certo ao que tanto perseguem. São os terroristas, penso cá eu, nem um pouco preocupado, pois em Paris a maior indagação deve ser: Como não sonhar com esta cidade?

Sim, aquele Palácio e aquele jardim agora são meus! Então cuidem bem dele, de suas árvores de suas flores e plantas, de sua terra, de suas estatuas, de sua infinita beleza. Habito por lá, mesmo estando ainda aqui na fuligem paulistana, onde sequer podemos pensar em caminhar ao largo do moribundo Tiête.

As odes são sempre temperadas pelo exagero, pela traição da memória que registra-nos apenas o que nos agrada quando estamos a passeio.

Eu, o tagarela do metro parisiense – tentando acertar a pronuncia das estações, e fazendo todos ao lado abrirem um discreto sorriso.

The Style Council - Down In The Seine

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fragmentos



Fragmentos
do aço
do cansaço
daquele amasso
de um abraço
dos teus olhos
nos meus

Fragmentos
de tua face
frente a minha
do teu espaço
perto, ou
dentro
do meu
da tua vida
entorno
da minha
órbita

Fragmentos
saudade
em pedaços
dos dias intercalados,
dia sim,
dia não,
em doses homeopáticas
até resplandecer
a esperança
de alguém
sem fé
ateu de si mesmo
deus
não onipresente
nada onipotente
e que onisciente
cai
desmonta
quebra feito papel
o seu antigo
e batido
destino traçado

Trilha Sonora
Artista: Bob Dylan
Música: Just Like a Woman

sábado, 11 de setembro de 2010

Nosso Mundo



"A cena da música folk havia sido um paraíso do qual eu tinha que sair, como Adão teve que deixar o jardim. Era simplesmente perfeito demais. Dentro de poucos anos, se desencadearia uma tempestade de bosta. As coisas começariam a ser queimadas. Sutiãs, certificados de alistamento, bandeiras americanas, pontes também - todo mundo estaria sonhando em se dar bem.

A psique nacional mudaria, e em muitos aspectos lembraria a noite dos mortos-vivos. A estrada seria traiçoeira, e eu não sabia para onde ela iria levar, mas a seguiria mesmo assim. Era um mundo estranho que se desenrolaria à frente, um mundo trovejante, com arestas pontudas luminosas. Muitos entenderam errado e jamais conseguiriam entender direito. Fui direto para dentro desse mundo. Ele estava escancarado. Uma coisa era certa: não apenas não era governado por Deus, como também não era governado pelo diabo"

Bob Dylan (no parágrafo final de Crônicas Vol. 1.)

O texto, a música e o vídeo são de arrepiar. A década de 60... quando muita coisa começou a mudar...

Trilha Sonora
Artista: Louis Armstrong
Música: What A Wonderful World

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

No Banco da Praça



Depois de viver o suficiente, sentou no banco da praça em uma tarde qualquer, mas era segunda-feira.

Como de costume abriu seu jornal por entre braços surrados pelo quase escambo de cinquenta anos ininterruptos junto ao cais do porto.

A manchete do noticioso trazia em letras garrafais: “Fraude no INSS Leva ao Colapso à Previdência Social”.

Deu um suspiro curto de conformismo enquanto suas mãos automaticamente dirigiram-se para o caderno de esportes. Do burburinho na praça ouvia-se o alarido sobre a mazela que tomara de assalto aquele grupo sempre descartado por parte maciça da sociedade.

Naquele fim de tarde ele preferiu continuar a passar seus olhos pelas letras miúdas do jornal, como espécie de revolta ante ao nefasto destino. Apenas parou para recordar de alguém que já não estava tão perto, mas fazia-se sentir ali, tal como o vento que não vemos, mas sentimos.

É quando a história ganha vida, real sentido.

As luzes dos postes centenários da imponente praça foram acesas e, o sol então começou a partir. Era hora de levantar-se, empunhar seu chapéu panamá tomar o rumo norte e vagarosamente marchar pela movimentada rua.

De longe a cena suscitava um senhor franzino vestindo um terno de linho branco amarrotado contrastando com um céu alarajando, luz natural amiúde, enquanto ele partia a noite chegava.

Eram seis da tarde na  antiga rua de paralelepípedos da praça, no palco da vida, por entre pombos, mendigos e crianças cheirando cola.

How does it feel

How does it feel

To be on your own

With no direction home

Like a complete unknown