quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Insano



“Só os que um dia perderam a cabeça sabem raciocinar "
(Oscar Wilde)
Serei eu o defensor da insanidade? 
Um turbilhão invade o meu ser
eu quero apenas o
silêncio...

I'm weightless
I'm bare
I'm faithless
I'm scared

Eu estou vazio,
Eu estou nu,
Eu estou sem fé,
Eu estou com medo.
Quem nunca sentiu isso na vida?

Vitrola: Placebo - Peeping Tom

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Voo Sincero



Há um relato de voz naquela voz,
tão retorcida voz, toda ela espanto.
o corpo que é voz tem um esgar
que deixa de ser corpo e é só voz.
se munch se dissesse, rediria
a voz candente, noite de gravura,
que é gravura e voz que firma a tela.
intensos tão meandros destes traços
que num itálico do grito a fala sente
o homem ser só grito, sem mais homem.

Romério Rômulo
Vitrola: Pink Floyd - Great Gig in the Sky

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

The Golden Age



Foi como abrir uma porta. De repente me vi ali – sozinho, quieto, mudo,
quase petrificado em refugio secreto, o meu quarto.

Pelo corredor escuro cruzei com objetos inanimados – eu podia jurar que ouvi vozes vindas do quarto onde ficava a escrivaninha fosca e caramelo – a mesma da minha infância. Sobre sua mesa uma maquina de escrever Remington e, dava para ver o meu pai datilografando seus manuscritos, fiquei curioso, me avexei – corri para o quintal e dei de frente com a minha avó materna: Esfregava as mãos, sorria na minha direção serena, calma e radiante tendo ao fundo como cenário o Pico do Jaraguá e suas curvas desafiadoras.

Foi como descortinar um elo perdido, então logo avistei meus amigos Denis, Júnior, Marcos, Paulo, André, Beto, todos jogando futebol comigo no quintal, o nosso Morumbi diário, sem preocupação com o tempo que agora não para de correr, correr... correr.

E na memória perdida
Encontrei-me
Quase feliz quase infeliz
Numa era de ouro.

Vitrola: Beck – The Golden Age

domingo, 7 de outubro de 2012

Versos Perdidos



Encontrei alguns escritos meus antigos, perdidos em papeis soltos aqui e ali... Herança das mudanças dos últimos anos.
O deste post foi escrito na véspera do meu 40º aniversário e intitula-se

“Véspera para nascer”.

Imagine um pôr de sol, então olhe o seu rosto de frente para o espelho e encare suas rugas, suas marcas de expressão e os seus cabelos grisalhos... Sim, hoje é a véspera da vida!

Amanhã quando raiar o sol serei eu mesmo após 40 anos. Eu me assombro: Já!

Foi rápido, ligeiro demais, pronto já é hoje. Posso cerrar os meus olhos e sentir os aromas da minha infância, ouvir as vozes de quem já não vejo mais, marcas minhas pegadas pelos mesmos caminhos de outrora.

Ainda canto vez por outra, “somos tão jovens”.
Mas ao mesmo tempo há presente uma pequena epifania.

O primeiro dia na escola, o medo, a descoberta de um mundo novo. Amigos, amigas, adultos, crianças, anjos, brincadeiras, alegria.

E nesse sonho reparador eu espio a mim mesmo apaixonando-me novamente pela primeira vez, acelerando o meu coração de menino.

O gosto da infância ainda me fascina. Quem não queria ser uma criança novamente? Eu queria ser a reencarnação da minha infância – reviver o que ficou bem lá atrás.

Papo saudosista, pois a vida continua e amanhã eu renasço pela quadragésima vez.  

Vitrola: Suede-Everything Will Flow

sábado, 6 de outubro de 2012

Pingos de Chuva



Bastaria um olhar
nada mais
pois já estava escrito aquele desencontro
embora fosse um sábado à noite
sua única companhia foram os pingos da chuva fria batendo em sua janela.

Vitrola: Bee Gees – Run To Me

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Jogo dos Contentes



Aqui dois exemplos do jogo dos contentes que vez por outra cito neste espaço. São duas capas da Revista Isto é, a da direita é a capa desta semana, e da esquerda é mais antiga. Em comum as duas com intenção ou não, terminam por vender uma ideia de felicidade que nos persegue cotidianamente. Nos dois casos a felicidade está focada no crescimento econômico dos personagens citados nas respectivas  capas e matérias.

Não existe nenhum problema em traçar um perfil de pessoas que cresceram economicamente nos últimos anos em solo pátrio, tampouco revelar que alguns brasileiros da dita terceira idade vão muito bem obrigado em suas vidas.

Mas... mas...

O que incomoda nos dois casos é a falta de um contraponto, de outro olhares, como que o leitor pudesse indagar espontaneamente:

-Mas e os outros que não tiveram essa sorte, oportunidade, ou quem sabe apenas foram honestos durante suas vidas e desta forma não enriqueceram, não prosperaram. E daí? Existem? São pessoas fracassadas é isso que vocês querem dizer? Mas por quê? 

Porque infelizmente uma minoria de pessoas com mais de 60 anos vivem dignamente neste país... Muitos idosos estão internados em hospitais públicos, sem sequer receberem um atendimento médico adequado e terão um final de vida melancólico.  

Este tipo de matéria apenas endossa uma vaga sensação de mascaramento social, de uma sociedade do faz de conta, distante de outras tantas possibilidades, inclusive a de ser alguém dito feliz sem ter nenhum tipo de sucesso. Me parece razoável destoar da maioria neste caso...


A mídia como um todo no país é muito unilateral, vende o que lhe interessa, melhor dizendo, vendem geralmente ficção, estórias onde a veracidade é tão concreta e sólida tal qual qualquer telenovela. Não existe responsabilidade neste caso, ficção vira realidade e pronto. Acredite se quiser!

Neste jogo dos contentes me parece cada vez mais proposital este intento arrogante de não aprofundar nada, é algo como se as pessoas não fossem capaz de analisar realidades dispares, o leitor no fim das contas é tratado como um idiota, um imbecil incapaz e, querendo ou não a imagem que perpassa é: Todos nós precisamos ser felizes a qualquer preço, sobretudo ganhando muito dinheiro, adquirindo bens, consumindo muito, tendo saúde, corpos bem esculpidos, etc. e tal...

Quer saber? Prefiro viver a vida de outra maneira, sem afetação, um dia de cada vez.



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Esperando por mim



Slow down, you crazy child
you're so ambitious for a juvenile
But then if you're so smart, tell me
Why are you still so afraid?

Talvez daqui um tempo seja isso que eu vou dizer ao meu filho(a)...

O que mais me causa apreensão neste momento é a percepção de um mundo em constante transformação, isso não representa obrigatoriamente algo bom, pode bem ser exatamente o contrário... O mundo anda um bocado complicado vamos combinar, não faço parte do coro dos contentes, não acredito nesta ditadura da “felicidade” vendida de maneira asquerosa pela publicidade. Então sei bem que educar um filho para a vida hoje em dia passa por essa compreensão e seus dilemas filosóficos.

Mas ainda é cedo para sofrer pelo futuro breve, ainda preciso aprender a trocar fraldas, dar banho no bebê, segurá-lo com firmeza e carinho... Isso tudo é muito poético e real para mim...  

Toca Billy toca...

Vitrola: Billy Joel – Vienna

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Cartão Postal



Envio-te este cartão postal
Esconda tuas lágrimas
Haverá pouco tempo
Leia-o
E tire suas conclusões…

Vitrola: Beirut – Postcards From Italy

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Não Encontrar



Sensível à flor da pele...
Numa tarde solitária de domingo, tendo a bucólica visão de uma praça vazia, sem pessoas, animais, plantas, apenas sozinha sob o sol de um dia lindo, céu azul de primavera...

E DE REPENTE eu ouço a voz do artista entoando “She´s Out Of My Life”...
Deve haver alguma explicação no mundo, ou fora dele, para tanta tristeza quando o assunto é amor...

Michael morreu solitário
Renato morreu solitário
Cazuza morreu solitário
Eu não quero morrer sozinho!

E tantos poetas sofreram por amor, ou à procura dele...

A música acaba e surge a bela “Rock With You”...
Puxa Michael você de fato resolveu machucar hoje...

Essa me lembra tempos juvenis, e como é bela a juventude!
Balada com jeito de fim da era disco (1979) do primeiro álbum solo do adulto Michael Jackson... Só posso ser óbvio:

Bons tempos!
*ps: escrito em um domingo qualquer de primavera.

Vitrola: Michael Jackson - She's Out Of My Life

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Embrutecimento


O pintor expõe a fome, a seca, a mazela vitalícia dos retirantes nordestinos deste país. Da infância lírica de sua cidade natal, Brodowski no interior de São Paulo, a uma percepção trágica da vida de gerações sucessivas no nordeste brasileiro. O quadro causou ‘indignação’ a certos governantes (bem típico aos canalhas sem alma) que tentaram censurá-lo, em vão diga-se.

A criança, uma caveira de braços abertos (crucificada), a tinta esbranquiçada destacando seu estado, as lágrimas de pedras de algumas pessoas ao redor, os olhares atônitos e, sobretudo, a dor desmedida da mãe da criança morta, fazem desta obra um recorte social da vida embrutecida de muitos brasileiros.

CANDIDO PORTINARI, Criança Morta (Criatura muerta), 1944
Óleo s/ tela, 176 x 190 cm.
Col. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand São Paulo, Brasil