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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Na Hora do almoço


Hector Babenco durante sua última entrevista ao Programa Roda Viva da Tv Cultura falou sobre a sobrevivência, presente em muitas de suas personagens.

- A idéia da não violência em grandes agrupamentos de pessoas, ou seja, por que numa praia que você tem um espaço por metro quadrado dividido por duas pessoas ninguém quando passa andando joga areia no outro? Por que num elevador onde você têm 10 pessoas ninguém agride? Por que numa cela que tem 14 pessoas, mas é um lugar para apenas 4 pessoas ninguém mata ninguém? 

Há um código de respeito, o que é meu é meu, há horário para ir ao banheiro. O ser humano tem uma capacidade fantástica de se reorganizar no espaço que ele tem para sobreviver. A sobrevivência é o único critério, não porque são educados. Porque ele sabe que se não há um código de respeito mútuo o caos se instala e o caos gera a violência e, a violência é insana e saí do controle e gera a morte.

Cena 1
Elucubrando sobre o assunto hoje na hora do almoço pensei: Talvez, seja isso que permita eu sentar a mesa de um restaurante para dividir espaço ao lado de pessoas que nunca vi e nunca mais verei na minha vida.

Cena 2
Talvez, seja isso que me impeça de reclamar da minha sogra quando ela (sem querer é claro) quase engasga o meu filho com mamadeira de água.

Cena 3
Talvez ainda, seja exatamente isso que me segure de jogar uma pedra no carro do motorista animal que quase me atropela sobre a faixa de pedestres quando o sinal esta fechado para o trafego de carros.

Vitrola: Belchior – Na hora do almoço


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hell



…Nos somos uma espécie de elétron sem núcleo. Temos um cartão de crédito no lugar do cérebro. Um aspirador no lugar do nariz, e nada no lugar do coração...”

Lolita pille

A vida ensandecida de Hell contaminou a minha sanidade numa noite de terça-feira. Ao terceiro e derradeiro sinal, o mais temido para atores e diretores em noite de pré-estréia, as cortinas do inferno caíram bem ali na minha frente. Do cenário à meia-luz e da trilha sonora envolvente, “Demain” na voz da bela francesa Berry, emerge em cena a persona Hell.

Ao cair da noite e quando escurece Paris muda de cor e sentidos...

A fumaça dos cigarros de Hell adverte: serão noventa minutos de angústia narradas em primeira pessoa pela personagem principal que nos leva a uma história de amor, intensa, cega, e sem limites. 

A banalidade da vida de Hell (Bárbara Paz) e Andrea (Ricardo Tozzi) é devastadora, uma polaróide da vida irreal ornamentada por drogas, álcool, sexo, luxo, e futilidades...

O cheiro do cigarro que Bárbara Traga em cena invade as minhas narinas, ao redor ouço o barulho de tosse em todo o teatro. Se o diretor Hector Babenco queria transpor Hell das páginas do livro para o palco a fim de traumatizar-nos a todos, a sociedade hipócrita, ele foi feliz em seu intento: sinto-me por alguns segundos dentro do inferno chamuscando a minha alma de dores intransponíveis, iludindo os meus olhos com a beleza física e teatral de uma Bárbara Paz possuída por sua personagem, até desaparecer ao som da trágica "La Traviata" numa cena comovente. 

Quando tudo acaba então percebo que aos poucos retorno para o mundo real... Avisto Marina Lima, Bruno Barreto, Rubens Ewald Filho, Daniel Piza, Tereza Collor, dentre outros ilustre convidados, mas minha mente não pára de pensar e memorizar a figura de Hell, com quem certamente ainda sonharei por alguns longos anos. 

Trilha Sonora
Artista: Berry
Música: Demain