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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Em Seus Braços


Perdido ali naquela cidade, onde quem não é bandido é ladrão, ele não fazia outra coisa senão olhar para baixo sempre que sentia a barra pesar.

Naquele dia os seus olhos foram iluminados por apenas uma nítida lembrança, a do seu único e último amor...

Cinco tiros à queima roupa cessaram seus dias, seus medos e esperanças...

Into My Arms -Nick Cave 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Urgência


Sinto-me tal qual um hotel
Sou o provisório 
Já não tenho paciência 
Para os contos de fada 
É tão pouco para a ideia de  
imortalidade da juventude.

“A vida é apenas uma ponte entre dois nadas
E tenho presa”.

Caio F. Abreu

Adriana Calcanhoto – Naquela Estação

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Frágil...


Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta.

Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável.

Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você.

Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse.

Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Caio Fernando Abreu

Vitrola: Sting – Fragile


domingo, 26 de agosto de 2012

Retratos 2



“Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens”.

Ferreira Gullar

Piazolla me faz chorar copiosamente,
a vida me faz chorar de tristeza e alegria
porque lá no fundo
sem essa dor
eu não reconheceria
o milagre da paz.

Na Vitrola: Astor Piazzola & Gerry Mulligan – Years of Solitude

quinta-feira, 29 de março de 2012

Retratos



“Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens”.

Ferreira Gullar

Piazolla me faz chorar copiosamente,
a vida me faz chorar de tristeza e alegria
porque lá no fundo
sem essa dor
eu não reconheceria
o milagre da paz.

Trilha Sonora
Artista: Astor Piazzola & Gerry Mulligan
Música: Years of Solitude

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A Voz do Coração



Hoje me bateu uma sensação de desolação. Não sei ao certo o motivo, ou, motivos. Não estou deprimido, longe disso. A auto-observação traz por vezes esse sentimento, esse mistério entranhado lá dentro de nós.

Pensei em duas coisas que não estão obrigatoriamente entrelaçadas. Lembrei de Isak Borg, personagem do diretor sueco Ingmar Bergman em “Morangos Silvestres” (1957). Na película o professor de medicina revive suas memorias ao reencontrar sua antiga casa na estrada entre Estocolmo e Lund, aliás, dia desses fiz um ‘download’ da minha infância neste blog.

Foi aí que percebi que já fui muito, muito mais rígido comigo mesmo, porém hoje em dia tento ter uma atitude mais ‘relax’. Para quem tem um monte de palavras ali à espreita, fica difícil não se ‘envenenar’ de poesia, de dores, alegrias, sorrisos e lágrimas de escritores, poetas, cineastas, músicos, compositores... e isso tudo todos nós sentimos, mesmo aqueles que negam e fazem aquela pose fake de durão.

Não sou indiferente e, esse é o lado positivo. Ninguém quer ter a sensação de envelhecer mais rápido do que esperava, ninguém quer pensar seriamente no rito de passagem, ou de retorno, o Raul Seixas já dizia que antes de nascermos estávamos mortos, e pra lá voltaremos...

Até o Steve Jobs morre e, ontem foi o dia dele partir.

A segunda lembrança me veio através da leitura de uma carta do Caio Fernando Abreu para seus pais. Fui à lona, nocaute certeiro. Fiquei comovido pela sinceridade e coragem, e penso o quanto deve ter sido sofrido para ele - um escritor – que se sentia impotente, um observador compulsivo da vida que passava ali por seus olhos fixos em uma janela.

São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,


Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.


Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês, seu filho,
Caio

O que importa é ouvir a voz que vem do coração...

Trilha Sonora
Artista: Milton Nascimento
Música: Canção da América

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Maybe



Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex (...) talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris (...) talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada

Caio Fernando Abreu

Trilha Sonora
Artista: Adriana Calcanhoto
Música: Esquadros

sábado, 28 de agosto de 2010

A Espera



Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta.

Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável.

Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você.

Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse.

Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Caio Fernando Abreu

Trilha Sonora
Artista: Nando Reis
Música: N

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A 1ª Vez, A Última Chance...



...Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. ...

Caio Fernando Abreu

Trilha Sonora
Artista: Legião Urbana
Música: O Teatro dos Vampiros