sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Poema para Aylan Kurdi

Aquela foto de um pequeno imigrante
estirado à beira do oceano
não traduzirá jamais
a sua alegria em viver...

Fico aqui pensando
Que você poderia ser o meu pequeno filho
O meu sangue
O meu coração
A minha única riqueza neste mundo
Que sacrifica crianças
Por interesses vergonhosos

Daí surgem as diferenças
Que vão matando milhares
Em cenas que nos lembram
Um passado triste e tenebroso
Da humanidade
Ou,
Melhor falando
Da ausência de humanidade

São Inocentes como você
Querido Aylan
Que estão morrendo
De verdade
Não apenas nas fotografias
Deste pobre mundo rico

Minhas lágrimas não servirão de nada
Pois, você se foi
Com suas pequenas asinhas
Voar em outras paragens
Conhecer oceanos mais limpos
Quem sabe existirá
No lugar que te recebe agora
O que nos falta neste mundo
Sorrisos autênticos e mãos estendidas...

Perdoe-nos a nossa falta de humanidade.





quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Roxy Music


Eis a banda que influenciou nove entre dez bandas que produziram rock em terras inglesas no início dos anos 80 do século 20.

Roxy Music (1972)

(Revista Bizz edição 15,Outubro de 1986)

"Muita gente descordará de que o Roxy Music tenha definido os anos 70; ao contrário, todos estarão de acordo com que a importância dos Beatles para os anos 60 tenha sido básica e radical. Não devemos estranhar. Os 60 foram anos de esperança, os 70, de confusão. Os 60, anos de unidades; os 70, anos de dispersão."
Como Ramón de España - que o enunciou em um interessante livrinho sobre a banda (Ediciones Jucar, Madri, 82) -, acho que essa é a chave da compreensão da importância do Roxy Music para o rock contemporâneo. O conceito Roxy, tal como foi formulado por Bryan Ferry, ataca o nó cultural daquela década obscura em muitas das suas variantes: consumo versus arte, melodia versus ruído, saída pessoal versus solução coletiva.
Bryan andou metido em uma escola de artes (foi aluno do pintor David Hamilton) antes de decidir que o rock era um suporte mais adequado para as suas aspirações estéticas. Descobriu isso por acaso - ele era crooner, por hobby, em uma banda soul de Newcastle, Inglaterra, por volta de 67. E sabia tocar o "bife", ou pouco mais, ao piano. Mudou para Londres. Comprou um piano (!). Suas exposições de pintura não foram muito bem-sucedidas, mas em 70 ele já tinha diversas composições, competentes o suficiente para não escandalizarem Andy Mackay, um novo amigo, saxofonista com trânsito na música experimental.
Com Mackay e um velho parceiro do grupo de soul, o baixista Graham Simpson, trabalharam o repertório enquanto experimentavam colaboradores: Dexter Lloyd; depois Paul Thompson na bateria, David OÕList (ex-Nice), depois Phil Manzanera para a guitarra. Mas o achado foi um jovem vanguardista, apaixonado pela eletrônica, que além do mais era a única pessoa conhecida capaz de tocar o sintetizador ("Meu Deus, o que é isso?!") que Mackay tinha comprado: Brian Eno.
Eis que, em 72, a EG Records e o letrista/produtor Peter Sinfield, recém-rompido com o King Crimson, resolvem lançá-los. Nesse meio tempo, as primárias canções de Ferry foram rearranjadas, reagindo magnificamente com suas letras cultas, entre o surreal, o irônico e o romântico. Da parte interna da capa do primeiro LP (por fora a modelo Kari-Ann se espalha numa colcha de cetim, sem um apelo sexual) cinco figuras exóticas, topetes pontudos, óculos de homem-mosca, jaquetas de oncinha, lançavam seu manifesto: re-faça, re-modele.
"Re-Make/Re-Model", a primeira faixa, começa com ruídos de festa. É esse o sentido da exuberância dos rapazes: celebração, e não bichice. O som evoca, freqüentemente, o rock dos anos 50. Mas este é um disco de idéias, mais do que música. O primeiro compacto, com a faixa "Virginia Plain", já tinha posto a banda em evidência. Os trinados de Ferry tratavam de uma de suas obsessões, o glamour do cinema hollywoodiano ("o real e confiável/é que Baby Jane está em Acapulco/e todos estamos voando para o Rio"), de um jeito provocador (Baby Jane Holzer foi estrela em alguns filmes underground de Andy Warhol). Sintetizador, sax e guitarra festejavam.
No LP, esses motivos estão expandidos. Além da profusão de efeitos eletrônicos futuristas, o trabalho de Eno no sintetizador amplia a noção de textura, até então pouco presente no rock. Os timbres de teclados, guitarras, sax (e oboé, o outro instrumento de Mackay) se combinam em camadas, se distribuem em solos rápidos, num certo sentido de música visual, gráfica.
Mas sobretudo é Mr. Ferry derramando-se em charme, ao piano, nos vocais brincalhões ou ressentidos, nas letras ricas em images, apaixonadas e apaixonantes - não fosse o nome Roxy inspirado naquelas salas de cinema onde se assistiam aos doces encontros e desencontros do amor. "Parece que foi ontem/que te vi pela primeira vezÉ/Como podia esquecer um dia assim?"

Alex Antunes


Vitrola: Roxy Music – Re-Make/Re-Model

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Coletivos


Compra coletiva de estupidez
Compra coletiva de cinismo
Compra coletiva de descaso
Compra coletiva de falta de caráter
Compra coletiva de corruptos
Compra coletiva de corruptores
Compra coletiva de futilidade
Compra coletiva de mau gosto
Compra coletiva de insanidade
Compra coletiva de atitudes (fakes)
Compra coletiva de cansaço
Compras
Compras
Compras...

Eis o mundo atual...


Vitrola: Eric Clapton - While my guitar gently weeps (Concert for George)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Dismaland


Um artista ‘insolente’ que adora questionar
O belo mundo da alegria fabricada... dos contos de fada...

Viva Banksy e sua Dismaland!

Achei genial a ideia da contradição com a famigerada Disneylândia.... Hahahaha!!!


Vitrola: Heaven or Las Vegas - Cocteau Twins

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Acalanto...


Tudo que a gente deseja
é às vezes ser relevante
Mas...

Billy irá cantar mais uma vez “Just The Way You Are” e, pela enésima vez
ficarei martelando aqui dentro as minhas incertezas...

Vitrola: Billy Joel - Just The Way You Are


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Diferente? Maybe


Uma forma diferente de apreciar a música dita clássica...
Pode ser divertido, ou, não!
Só mesmo experimentando...



Vitrola: CLASSICAL MUSIC RAVE. MENGEL & BERG

domingo, 16 de agosto de 2015

Carnavais


O Aerosmith é o meu lado mais próximo do rock testosterona, já gostei bastante da banda e, penso que ainda merecem o meu respeito por sua história e ótimas composições.

Lembro-me de um carnaval há décadas atrás quando muitas coisas aconteceram de bom e também de errado, mas ‘o importante é que emoções eu vivi’, o resto é história...

Lady and gentlemen, let's welcome the Greatest Rock 'n' Roll Band in the World!

Aerosmith…

Rocks (1976)

(Edição Revista Bizz 103,Fevereiro de 1994)

O ano de 76 foi um divisor de águas no calendário do rock. Os primeiros acordes do punk marcaram a ruptura com o passado de um gênero que evoluiu além de suas medidas. Mas nem todos os grupos que surgiram no início da década ou antes, haviam virado dinossauros ou então trocado a rebeldia por aquelas soníferas progressões sinfônicas.
Herdeiro direto do passado do Led Zeppelin e dos Rolling Stones, o Aerosmith estava disposto a manter viva a tradição, com sua orgia de rock/adrenalina unindo seus amplificadores envenenados a distorções nos últimos limites.
O grupo surgiu em 70, como o trio Chain Reaction, em New Hampshire, EUA. Era composto por Steven Tyler (que na época era o baterista), Joe Perry (guitarra) e Tom Hamilton (baixo). ComTyler assumindo os vocais e a adição de Brad Whitford (segunda quitarra) e de Joey Kramer (bateria), eles encontraram a formação definitiva, que foi modelar seu som numa base que unia rock, blues, country, rhythm'n'blues e funk.
A discografia deles começou um tanto tímida com um par de álbuns: "Aerosmith" (72) e "Get Your Wings" (74), ficando promissora com "Toys In The Attic" (75). Mas foi em 76 que eles gravaram o álbum fundamental para seu vôo rumo ao estrelato. Unindo violência com sedução em doses arrebatodoras, Rocks produziu um efeito devastador na época de seu lançamento. Um disco pesado, mas bem balançado. O Aerosmith somava ótimas passagens melódicas e um punch vindo da música funk à selvageria explícita dos riffs.
A faixa de abertura, "Back In The Saddle" (com sua introdução ritualística, culminada pelos relinchos das guitarras), assim com "Sich As A Dog" tornaram-se clássicos.
Impossível apontar uma só música em todo o álbum que não atraísse o ouvinte a uma emboscada sem fuga de rock'n'roll. A voz esganiçada de Steven Tyler sugeria o grito de ordem de um sumo-sacerdote, comandando uma espécie de festival de imolações, angústias e tensões fulminantes.
A entrada macia de " Last Child" ameaçava uma balada, mas o baixo demolidor de Tom Hamilton confiscava a melodia inicial para os domínios do funk rock. Guitarras aceleradas davam a partida para o ritmo de "Rats In The Cella". A festa seguia quando "Combination" irrompia em uma levada sensual, com vocais à beira do gozo. "Nobody's Fault" entrava com a fúria de um touro no meio da arena e - no climax - a voz de Tyler cuspia uma seqŸencia de versos encadeados.
As tensões aquietavam-se no boogie de "Get The Lead Out", mas era retomada na floresta elétrica de "Lick And A Promise". Para encerrar, "Home Tonight" era uma última e desesperada tentativa de balada - desta vez bem sucedida. O que era uma descarga incessante de energia acabava em uma dilacerante canção de amor.
Um disco que celebrava o tempo todo o espírito de rebeldia e diversão juvenis numa voltagem tão intensa não poderia ter outro nome. Com "Rocks", o Aerosmith conquistou a fama de grande banda e conseguiu a forma definitiva para um som que iria seduzir multidões nos anos seguintes.

Eduardo Bastos

Vitrola: Aerosmith – Home Tonight

sábado, 15 de agosto de 2015

Ela


Ela irá surgir e desaparecer
com a mesma rapidez de um raio que cruza os céus
ela me encanta com seus olhos esverdeados
ela me leva para lugares que nunca sonhei em conhecer
e que talvez nunca venha a conhecer...

Ela me conduz a sensações humanamente inatingíveis
tudo nela é ímpar, lindo e humano
até mesmo a sua solidão
é passível de louvor
e ela não sai da minha mente,
pois ela é linda,
é simplesmente assim
e nada mais...

Vitrola: Elvis Costello – She


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Television


Sonzeira…Solos de guitarra inspirados, boas lembranças!


Television

Marquee Moon (1977)

(Edição Revista Bizz de 22,Maio de 1987)

Malcolm McLaren sabia que os "pais da matéria" estavam nos EUA. Foi lá que ele buscou inspiração para que o movimento punk acontecesse - de forma concentrada - na Inglaterra. O que seria do punk sem o despojamento dos N.Y. Dolls, a demência dos Stooges, o antilirismo do Velvet e a agressividade do MC 5? E não foram só estas - todas elas, bandas extintas anos antes do punk - as fundamentais. Nova York fervilhava de bandas que acabariam traçando os moldes do que viria depois do punk. Eram as bandas new wave de Nova York e, dessas, a mais importante, ao lado dos Talking Heads e dos Voidoids de Richard Hell, foi o Television.
A história deles começa com o grupo Neon Boys, fundado por Tom Verlaine (guitarra/vocais) e Richard Hell (baixo/vocais) em 71. Richard Lloyd (guitarra) e Billy Ficca (bateria) completavam o grupo, que alguns anos depois mudaria de nome para Television. Hell saiu por volta de 74, e Fred Smith, ex-baixista da Blondie, foi chamado para substitui-lo. Em 74, o TV gravou um single e em 77 eles assinaram com a Elektra para gravar o "Marquee Moon", o primeiro LP.
Em meio à avalanche punk em que a maioria das bandas fazia um som rápido e primário (Ramones, Dead Boys) ou flertava com o pop (Blondie, Marbles), o Television optava por uma linha musical mais elaborada, com melodias harmoniosas, convivendo com ruídos e músicas longas que, ao vivo, se transformavam em verdadeiras jam sessions.
O som do TV remete a uma gama de referências musicais, que vão de Byrds a Neil Young, de Doors a Velvet Underground. Não que o TV soasse como uma das bandas citadas. Ela parecia querer ser todas elas ao mesmo tempo e um pouco mais.
A música de "Marquee Moon" é leve em seus ingredientes e pesada em sua atitude. Os instrumentistas não usam efeitos ou pedais. É rock'n'roll puro, de uma fluidez impressionante. Verlaine e Lloyd formam uma das duplas de guitarristas de rock que mais deram certo. Ambos solam, se alternam em riffs, bases e harmonias. Ambas as guitarras - principalmente a de Verlaine - alcançam sonoridades que às vezes parecem com guinchos, grunhidos e gritos. Ficca e Smith formam uma cozinha "à francesa" leve, com toques jazzísticos, sem abusos.
As letras - todas de Verlaine - sugerem mais do que dizem, como na faixa de abertura "See No Evil" ("Eu entendo tudo/ a destruição urge/ela parece tão perfeita/eu vejo/eu não vejo nenhum mal"). As texturas sonoras são molduras perfeitas para as letras, como na faixa seguinte, a balada "Venus", em que Verlaine cai "direto nos braços da Vênus de Milo". Em "Friction" o destaque vai para o solo esquizofrênico de Verlaine, assim como na comprida "Marquee Moon" (que, aliás, tem um belíssimo falso gran finale).
O lado B começa com uma jóia, "Elevation" ("A última palavra/é a palavra perdida/por que você não o diz então?"), onde o junkie Lloyd faz um solo emocionante. "Guiding Light" (única co-parceria de Verlaine no disco - com Lloyd) é mais uma balada que demonstra a sensibilidade harmônica de Verlaine. Em "Prove It", a combinação de base sonora simples com o caleidoscópio de images evocadas por Verlaine é mais uma vez perfeita. Em "Tom Curtain", a última música do disco, outra magnífica combinação: a voz chorosa de Verlaine relembra os anos passados, enquanto sua guitarra estridente rola suas lágrimas mais amargas.
Nem o Television (que acabou em 79) nem seus integrantes em carreira solo conseguiram fazer um disco à altura de "Marquee Moon" (que na edição nacional saiu com um ridículo carimbo de "punk rock" na capa). É este o disco que prova que eles eram, instrumentalmente, uma das bandas mais integradas da década de 70, e não há músico ou não-músico - de qualquer gênero - que, ao ouvir o disco, não se convença disto.

Celso Pucci/Thomas Pappon


Vitrola: Television - Elevation

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Meio Bossa Nova e Rock'n Roll


Filho da saudosa atriz Renata Fronzi e do radialista César Ladeira, o músico Renato Ladeira nos deixou ontem, após 63 anos de vida. Tecladista fez parte do grupo de rock Herva Doce na década de 80. Entre suas composições destaca-se a bela bossa “Faz Parte do meu Show” parceria com o amigo Cazuza.


Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num clipe sem nexo
Um Pierrot retrocesso
Meio bossa nova e rock'n roll


E a vida segue...



Vitrola: Cazuza – Faz Parte do Meu Show