Uma
despedida à altura da obra de Renato Manfredini Jr:
O Livro dos
Dias é uma canção tristonha - composta por alguém que já sabia que não viveria
muito mais do que aqueles meses do ano de 1996...
É bela pela
natureza simples da vida, pois aqui se nasce, cresce e um dia partimos...
A voz de Renato neste disco é um ato quase heroico...
Renato sabia
como poucos aliar elementos que juntos podem ser um desastre, ou então algo tão
lindo quanto a última música do último disco da Legião Urbana ainda com ele...
Ontem à
noite assisti “Birdman (EUA/2014) - (A Inesperada Virtude da Ignorância)” dirigido
por Alejandro González Iñárritu e com elenco capitaneado por Michael Keaton,
Zach Galifianakis, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, entre outros.
Para além da
crítica avassaladora que o filme traça sobre o mundo do entretenimento o que
inclui, sobretudo o próprio cinema, “Birdman” é uma aula sagaz de narrativa cinematográfica,
de como é sim possível ainda realizar filmes inteligentes, embora esse
definitivamente não seja uma película dedicada as massas, uma consequência inevitável
da estética pobre gerenciada nas últimas décadas pelo mundo coorporativo do
entretenimento em relação a tudo, teatro, cinema, literatura etc.
Algumas “coincidências”
também chamam a atenção durante a exibição na tela desta obra, como por exemplo
a escolha de Michael Keaton para o papel central - vivendo na tela o ator Riggan Thomson,
preso a sua personagem de maior repercussão em sua carreira (O homem pássaro),
e Keaton entende um pouco sobre o assunto - basta mencionar a palavra “Batman” e tudo
passará a fazer certo sentido.
Humor negro,
situações conflitantes, metáforas hilárias, e uma boa dose de sonhos em alguns
instantes compõe o arcabouço estético deste filme, e como é impossível
dissociar a sua própria vida daquela telona à sua frente, eu enxerguei porções
generosas de “Birdman” dentro do meu próprio ego, pois é fácil estar preso a
sua persona mais popular durante a vida, o difícil mesmo e libertar-se disso e fazer o longo
retorno a sua essência, algo que provavelmente ficou perdido em nossa infância.
Birdamn,
Morrisey e eu – devemos mesmo fazer parte da mesma sala de aula de outrora e,
isso vale a todos pois somos todos iguais nesta noite, pelo menos enquanto
assistimos as acusações e peripécias de Iñárritu e seu incrível Homem Pássaro.
Vitrola: Morrissey
- Please, Please, Please, Let Me Get What I Want
Ela ouvia
uma prece em forma de música religiosamente todos os dias às 10h da matina. Naquele dia de chuva não a ouviu, ficou inquieta, fisionomia grave, sem alegria nos olhos e saiu em desespero para a rua. Quase foi atropelada,
xingou o motorista, berrou palavrões, riu de lado e partiu novamente em disparada...
À frente brigou
na banca de jornal, tentou roubar um pedaço de torta de chocolate na doceria da
grande avenida, fez gestos obscenos quando passou em frente a academia de ginástica
do bairro, era um péssimo dia... um desastre por completo.
Quando
cansou decidiu retornar para casa, sozinha sem guarda-chuva, exposta ao frio e ao
relento, parecia calma, cumprimentou uma senhora na rua, sorriu para a garota
da livraria da esquina, parou no semáforo e enfim adentrou em casa para o
encontro com seu compacto de Lou Reed, queria ouvir “Perfect Day”, gostava de
acreditar que tudo em sua vida necessitava de opostos bem definidos...
You're
going to reap just what you sow,
Martelava
sua mente junto à delicadeza do piano da canção, no final de uma manhã perfeita - dividida entre a fúria repentina e uma inescapável e curiosa paz...
Caiu no sono no inicio da tarde e, sonhou com minguantes luas, amores e amigos.